sábado, 1 de dezembro de 2012

Eugênio Cunha: A história do colonizador do norte do Estado

Imagem disponível no site: http://www.seculodiario.com.br/arquivo/2008/janeiro/07/index.asp acessado em 08/07/2012.

Dando continuidade a publicação da série de seis entrevistas, iniciadas pela de Cyro Medeiros, feitas pelo jornalista Rogério Medeiros, publicadas no jornal "A Tribuna" de Vitória, em 1974, hoje apresentamos a entrevista com o veneciano Eugênio Cunha, neto do Barão de Aymorés, filho de Wantuyl Rodrigues da Cunha, pai do saudoso Dr. Eduardo Durão Cunha, patrono de nossa Biblioteca Pública Municipal. Além de falar sobre seu ilustre avô, revelava as desventuras de ter chefiado o Serviço de Colonização de Barra de São Francisco no final da década de 1930, onde fundou, dentre outros, o atual município de Mantena. Mais uma fonte primária para a construção da História de Nova Venécia e do norte capixaba. Rogério Piva. (editor do blog)


Por ROGÉRIO MEDEIROS, publicado on-line com o título original "A história do colonizador do norte do Estado" no site: http://www.seculodiario.com.br/ na seção Arquivo - Reportagens Especiais.


Embora muito lúcido quando procurado pelo repórter e forte nos 79 anos, Eugênio Cunha, o primeiro chefe do Serviço de Colonização de São Francisco, foi, no entanto, a pessoa mais arredia e resistente ao depoimento. Convencê-lo, só foi possível com a ajuda de sua esposa, uma senhora afável e alegre, de cabelos totalmente grisalhos.

Apesar de monossilático, suas informações se encaixam muito bem nesse painel de desbravadores do norte do Espírito Santo. Os que o conhecem há mais tempo, dizem que a rebeldia e a irreverência são suas principais marcas, o que, realmente não deixa dúvidas a sua vida: foi expulso do Colégio Militar porque apoiou a revolta de Luiz Carlos Prestes. Preso e castigado, suportou os sofrimentos sem reclamos. Solto, entretanto, recusou a anistia.

Voltando depois ao seu Estado, aceitou a tarefa de colonizar a região mais infestada de bandidos e policiais mineiros. Logo cortaria todo o fundo do Estado até Minas Gerais que, mais tarde, serviu, inclusive, ao Serviço Geográfico do Exército para traçar a divisa entre os dois Estados. O seu pioneirismo é de família, já que o seu avô, Barão de Aimorés, foi quem iniciou o processo de colonização, ainda no século passado. Por isso, no início de seu depoimento Eugênio Cunha fala um pouco dele:

O nome do Barão de Aimorés era Antônio Rodrigues da Cunha, filho do comendador do mesmo nome, que era condecorado com a Ordem de Cristo [e] da Rosa. Seu pai era dono da fazenda Outerinhos, no Campo Redondo, em São Mateus, que Saint Hilaire, quando a visitou, desenhou o lugar a bico-de-pena. Era fazendeiro e construtor de barcos, sendo o maior, o Nacional Brasileiro, que nas colheitas transportava até 1.500 alqueires. Quando ele, que era meu bisavô, faleceu deixou 11 filhos entre homens e mulheres.

O Barão de Aimorés recebeu 100 escravos de herança e se mandou com apenas 22 anos de idade. Subiu o braço sul do rio São Mateus e foi fazer a sua fazenda em plena mata virgem. Fez uma mansão, uma ponte atravessando o rio, uma grande façanha para a época, uma barragem, um sobradão, onde instalou uma usina de açúcar que importou da Europa, cuja roda d'água foi parar em poder de Oto de Oliveira Neves, estando escrita nela: London. Depois de tudo feito, com a baixa do açúcar, ele atravessou o rio e botou fogo nos canaviais.

Saiu dali e abriu um picadão para estabelecer contato com Minas Gerais. Foi bater em pleno distrito mineiro de Peçanha. A Folha, daquela época, noticiou: "Um rico fazendeiro de São Mateus, major Antônio Rodrigues da Cunha, abriu esse caminho e foi aqui festivamente recebido". No Serviço de Colonização, eu ainda encontrei um trecho desse picadão.

Depois foi desbravar Nova Venécia, deixando para trás sua fazenda na Cachoeira do Cravo. Foi plantar café. Ele conseguiu transpor as barreiras dos índios, que infestavam essa região, porque sabia falar perfeitamente a língua deles. De certa feita, encontrou índios amotinados, cantando uma onomatopéia. Quis saber o motivo daquela cerimônia. Os índios disseram que uma índia foi apanhada por um civilizado, que era um negro. O Barão mandou colocar um negro no tronco e chegar os ferros nele. Os índios se sentiram vingados. E assim ele pôde fundar em paz sua nova fazenda, que ficou nos contrafortes de uma serra que hoje é conhecida como Serra de Baixo, a 12 quilômetros para o sul da sede do município de Nova Venécia. Ele demarcou, depois conferida pelo chefe do Comissariado de Terras do Governo Estadual, a Quarta sesmaria.

Em pouco tempo, havia nessa propriedade um milhão de pés de café. Ele deu alforria aos escravos antes da lei. Deu início ao povoamento de Nova Venécia mandando buscar 60 famílias, de italianos. Abriu, por essa ocasião também, um picadão numa mata virgem de Nova Venécia a cidade de São Mateus. Mudou várias curvas do rio São Mateus a fim de permitir melhor passagem para as enormes canoas de voga. O meu pai, Wantuil Rodrigues da Cunha, era seu filho. O Barão costumava dizer que foi agraciado por causa de seu irmão Reginaldo Rodrigues da Cunha, fiel seguidor de D. Pedro [II]. Mas a alegação de sua comenda estava ligada a seu pioneirismo na cafeicultura. Não gostou quando foi contemplado, porque era contra o partido do imperador. Por isso, nunca assinou seu nome com o título. Em todos os seus documentos que encontrei não havia essa citação. Influiu muito na política. Fez governadores Graciano Neves e Constâncio Sodré. Morreu cedo, aos 58 anos, em 1893. Fez-se ainda uma tentativa para salvá-lo mandando buscar Graciano Neves (médico) em Vitória.

Eu nasci num lugar perto da serra onde o Barão de Aimorés tinha a sua fazenda de café. Em Barracão, que hoje é Nova Venécia. Era assim conhecido porque era o barracão da imigração italiana. Quando voltei do Colégio Militar, a Secretaria de Agricultura me encarregou de fazer o Serviço Territorial do Norte do Estado. Mas tomei conhecimento das invasões mineiras somente quando cheguei à Nova Venécia. Encontrei plantas e croquis dos frades de Itambacuri, das missões indígenas de Minas Gerais. Proibi que fossem dadas informações a eles. Os freis estavam interessados em grilagem de terras. Quando já estava à frente do serviço, recebi um dia um pedido do frei Inocêncio para deixá-lo rezar missa em São Francisco.

Eu, que sabia que esse frei andava fazendo miséria junto com alguns bandoleiros, permiti a missa, mas mandei dizer a ele que podia vir, mas não na condição que estava acostumado senão ia entrar no pau. Ele não apareceu, mas mandou uma queixa para o bispo. O padre Zacarias já andava por lá. Fui ao Carlos Lindenberg, que estava na Secretaria de Agricultura, e disse que ele tinha que tomar imediatas providências contra as invasões mineiras, prevenindo-o que o interventor, que era o Bley, era também mineiro.

Logo nos dias seguintes, o Carlos mandou me chamar e me disse que o Bley tinha topado a parada de enfrentar os mineiros. E virando-se para mim disse: "Você está escalado para chefiar o serviço". Incontinente, respondi que não aceitava porque era de política contrária a ele. "Tem que ser você - insistiu o Carlos - filho de família da região e já habituado a atuar no povoamento da região". E prometeu carta branca para agir. Aceitei mas adverti que não queria qualquer o contato com o Bley. Antes de seguir para a região, fiz um seguro de vida de 40 contos, que era o máximo. Levei alguns homens. Já no começo da jornada, de Nova Venécia para cima, perdi logo dois burros.

Fui estabelecendo regras para a região. Disse de saída, ao cabo Sobrinho, que ia atuar também na região que não queria processo para ladrão de cavalo e matador profissional... Passei a ir às vilas reunir o pessoal para estabelecer normas de vida. Sempre que havia oportunidade, demonstrava minha perícia com um revólver, com um cavalo bravo e até na forma de fumar cigarro de palha. E na minha pregação havia palavras de ordem. Eu dizia sempre, por exemplo, que o Governo do Espírito Santo tinha me mandado para lá para fazê-los gente. Por enquanto vocês ainda não são gente, mas vão ser. Vou fazer vocês gente. E dizia: Eu não tenho coragem, mas também não tenho medo. Enquanto eu estiver por aqui ninguém responde por culpa velha, mas se fizer a nova vai responder também pela velha.

Em seguida, eu mandava sempre o destacamento desarmar os maiorais. Por isso, quando eu saía para as minhas missões informava sempre que ia para um lado e seguia para o outro. De madrugada, evitava até em acender o cigarro, para não iluminar o alvo. Existiam até subdelegados que eram bandidos. Quando eu cheguei nesse serviço, não existia nada de Nova Venécia para cima. Eu fundei, com o tempo, Mantena, com o nome de Gabriel Emílio. Entrei nesse serviço no ano de 1938. Quando acabei Gabriel Emílio, deixei lá 194 casas, igreja, escola, etc. O primeiro professor que nomeei era um antigo aluno do Colégio Militar da Praia Vermelha do Rio de Janeiro. Fundei também Vargem Grande, Vargem Alta, coloquei destacamento policial nos principais pontos da região. Levei três agrimensores para fazer a medição da área e cadastrei todas as propriedades existentes.

Abaixo de Barra de São Francisco que quando cheguei tinha apenas quatro casas, fiz uma barragem grande no rio. Foi para servir à instalação de uma máquina de pilar arroz. Tinha era muito foragido da justiça por lá. Gente de Minas Gerais, nossa, e até da Bahia. Nos caminhos havia muitas cruzes. Eles passavam matando e o povo mesmo enterrava. De São Francisco à propriedade do Alfredo Fagundes, 10 quilômetros de distância, tinha nove.

Numa região assim era preciso fazer justiça. O chefe do meu destacamento era o cabo Sobrinho, um homem muito valente. Nomeei o meu recenseador Tolentino Xavier, que depois foi prefeito de Ecoporanga. Um belo dia recebo um bilhete dele que estava sendo preso e conduzido para São Tomé. Eu mesmo peguei um destacamento e fui na direção de São Tomé. Fomos no rastro deles certinho. Quando chegamos lá identificamos logo a casa em que eles estavam escondidos, era no canto de uma propriedade. Demos uma rajada para cima e outra para valer. Resultado do ataque, um baleado e dois machucados e Tolentino recuperado. O resto deles se arrancou. Era um cabo de cavalaria mineira com mais alguns cavalarianos, chefiados por um tal de Antônio Matos, o pior bandido de Itambacuri.

O difícil foi a retirada de São Tomé, com as tropas mineiras no meu encalço. Fui obrigado a me separar do destacamento. Fiz ele ir para um lado e eu fui pra outro. Com muita ajuda de capixabas, consegui chegar a Colatina. Imediatamente fui chamado a Vitória e repreendido pelo secretário de Interior e Justiça que julgou a minha ida a São Tomé uma invasão em território mineiro e teve a coragem de dizer que foi uma ação criminosa. Eu respondi que criminoso era encontrar um capixaba da sua altura. O Bley que assistia à cena mandou acabar com a discussão.

Resolvi deixar o serviço. Fui ao Carlos Lindenberg, a quem estava subordinado, e entreguei o meu pedido de demissão. E disse para ele, com referência ao secretário: eu me desgraçando todo no mato para encontrar um cachorro desses para me repreender. Procurei o meu emprego na Prefeitura de Vitória, mas ele já estava tomado. Era a recompensa por aqueles anos vigiando e povoando o solo capixaba. Fui mandado para São Mateus para medir terras... o prêmio ou o castigo de quem trabalhou. Mandaram para a região, o capitão Djalma Borges, que fez misérias, mas eu prefiro não comentar...
Fonte: http://www.seculodiario.com.br/arquivo/2008/janeiro/07/index.asp

Um comentário:

Lilia Mello disse...

Esse é o relato de uma inteligência brilhante como raramente se viu. Eugênio Cunha, meu avô!

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