sexta-feira, 29 de janeiro de 2010

GAMELEIRA na APA da Pedra do Elefante é alvo de vândalos

Vista da gigantesca Gameleira (Ficus sp) na Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante. Localidade de Serra de Baixo - Nova Venécia (ES). Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/10/2009.


Por Rogério Frigerio Piva



Uma das jóias existentes na Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante – a árvore popularmente conhecida como Gameleira (Ficus sp) que, segundo informações do Instituto Estadual do Meio Ambiente - Iema -, teria mais de uma centena de anos e cerca de 5 metros de diâmetro, foi alvo da ação de vândalos que deixaram seus registros indesejáveis nas raízes da mesma.

No dia 04/10/2009, ao levarmos amigos para conhecer a exuberante e gigantesca gameleira, que é um importante patrimônio natural veneciano, pudemos constatar até onde vai a “imbecilidade” do ser humano, se é que alguém que comete um gesto tão ridículo como aquele pode ser chamado de “humano”.

Detalhe das raízes da Gameleira (Ficus sp) na APA da Pedra do Elefante onde se vêem as pichações com tinta verde com as iniciais "EO" e "FG 2009". Localidade de Serra de Baixo - Nova Venécia (ES). Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/10/2009.



Utilizando tinta verde, um ou mais vândalos picharam algumas das raízes com suas iniciais e ainda dataram o que eles devem acreditar ter sido um “grande” feito. Infelizmente, os atos de vandalismo contra a árvore são mais antigos. Observando atentamente as suas raízes que, segundo a prefeitura municipal de Nova Venécia, ultrapassam 1,80 metros de altura, em alguns pontos, pode-se perceber que indivíduos insistem em gravar com canivete seus nomes ou iniciais nelas.

Outro detalhe das raízes da Gameleira (Ficus sp) na APA da Pedra do Elefante onde se vêem as pichações com tinta verde com as iniciais "FG" e o nome "Maykon". Localidade de Serra de Baixo - Nova Venécia (ES). Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/10/2009.


Apesar de agredir a árvore estes atos não interferiam na sua beleza cênica. A novidade é que, agora, quem for fotografar terá que escolher ângulos que não mostrem as pichações.

A popular Gameleira da Pedra do Elefante como também é conhecida, tem um porte gigantesco e chama a atenção de quem vai contemplá-la. Segundo a já citada administração municipal, a árvore teria mais de 15 metros de altura.

As terras onde a árvore se localiza foram desbravadas no final do século XIX, por volta de 1870, pelo major da Guarda Nacional Antônio Rodrigues da Cunha, mais tarde agraciado por D. Pedro II com o título de Barão de Aymorés, onde o mesmo constituiu sua fazenda denominada “Serra dos Aymorés” no sertão do que então era o antigo município de São Mateus.
Se for de fato centenária, a Gameleira viu o derrubar da mata local pelos escravos africanos para o cultivo do café, bem como a chegada de migrantes nordestinos e imigrantes italianos nos primórdios da colonização das terras venecianas. Certamente antes de tudo isso, pode ter sido abrigo para tribos de índios botocudo, como a dos Giporok, que erravam por nossas matas antes da colonização.

Nos anos 1990, ela se tornou centro de uma manifestação religiosa. Muitos acreditam que no local ocorra a aparição de Maria de Nazaré, mãe de Jesus, que foi ali chamada de “Mãe dos Peregrinos” e recebeu até um pequeno santuário construído por devotos em uma escarpa rochosa logo acima da pequena faixa de mata a qual se tem acesso pela Gameleira.

Com a criação da APA da Pedra do Elefante, em 2001, a Gameleira passou a ser mais divulgada como ponto turístico.


Para saber mais sobre a APA da Pedra do Elefante acesse:

http://www.meioambiente.es.gov.br/default.asp?pagina=16715

Veja também:

domingo, 25 de outubro de 2009

DACILITO: O último adeus

O saudoso Dacilito no sítio histórico-arqueológico das ruínas do casarão do Barão de Aymorés (Casarão dos Escravos) na localidade de Serra de Baixo, zona rural de Nova Venécia, tendo ao fundo a Pedra do Elefante. Flagrante dos bastidores de entrevista dada por Dacilito a repórter da Star TV, Gabriella Coppo, sobre sua participação no longa metragem do diretor Paulo Thiago, SAGARANA: O DUELO, que teve uma de suas seqüências gravadas neste local em 1973. Foto: Rogério Frigerio Piva, 16/04/2009.

Infelizmente, conhecemos muito pouco o Sr. DACÍLIO JÚNIOR PESTANA SANTOS (1945-2009), chamado por todos, carinhosamente, de DACILITO. Nosso primeiro e único contato foi apenas em uma tarde, na qual travamos intensa conversa. Em meio as filmagens de uma entrevista para a Star TV, pude conhecer melhor aquele homem, sobre o qual, já ouvira muitas histórias, e perceber que estava diante de um grande veneciano como poucos que ainda temos hoje em dia.
Filho de tradicional família veneciana, Dacilito, orgulhava-se muito de seu saudoso pai, Sr. Dacílio Duarte Santos. Seu pai foi um dos homens que liderou a emancipação política do distrito de Nova Venécia no ano de 1953, quando era vereador, pelo distrito, na câmara municipal de São Mateus. Como Dacilito fazia questão de contar, naquele tempo, o seu pai saiu em lombo de cavalo pelos arrastões de madeira (caminhos) que levavam ao interior para colher, de casa em casa, as assinaturas do abaixo-assinado que endossava o processo de emancipação de Nova Venécia.
Creio que um dos fatos mais marcantes relacionado ao Dacilito seja o seu envolvimento com a produção do longa metragem SAGARANA: O DUELO do cineastra Paulo Thiago. Gravado em 1973, teve sua primeira seqüência rodada nas ruínas do casarão do Barão de Aymorés (Casarão dos Escravos), na localidade de Serra de Baixo, zona rural de Nova Venécia.
Segundo Dacilito, os tiros ouvidos na seqüência foram feitos por ele, visto que o protagonista, o ator Joel Barcelos, não possuía intimidade com as armas. Estas, aliás, eram do acervo de Dacilito e foram utilizadas na produção da película que se tornou um clássico do cinema nacional. Aliás, a coleção de armas de Dacilito era famosa e merecia ser preservada de maneira permanente em um museu na cidade em que ele nasceu e amava. Segundo se noticiou, estas, estão em segurança, sob guarda do exército em Vila Velha, a espera de alguma iniciativa que as traga de volta para nossa cidade.
Inclusive, ainda sobre o filme SAGARANA, contava Dacilito que o "calhambeque" utilizado no filme, era de Flayne Bastos e teria sido reformado exclusivamente para este propósito.
Mais detalhes sobre o filme:
E foi com imensa surpresa, ou melhor, espanto, que recebemos a notícia da morte de nosso amigo Dacilito e, a ele e a sua jovem filha, dedicamos estas linhas que, se não foram escritas antes, foi por ainda sentirmos o engasgo na garganta do que poderia ter sido uma longa e duradoura amizade.

O cinegrafista, a repórter da Star TV, Gabriella Coppo, e Dacilito. Flagrante dos bastidores de entrevista dada por Dacilito a repórter da Star TV sobre sua participação no longa metragem do diretor Paulo Thiago, SAGARANA: O DUELO, que teve uma de suas seqüências gravadas na Serra de Baixo, zona rural de Nova Venécia em 1973. Foto: Rogério Frigerio Piva, 16/04/2009.
Detalhes sobre o acidente que, na manhã do sábado, dia 26/09/2009, tirou a vida de Dacilito e sua jovem filha:
http://anoticianv.com.br//index.php?option=com_content&task=view&id=266&Itemid=41

Epitáfio para um amigo......

Sentinela
Milton Nascimento
Composição: Milton Nascimento / Fernando Brant


Morte vela sentinela sou do corpo desse meu irmão que já se vai
Revejo nessa hora tudo que ocorreu, memória não morrerá
Vul.......to negro em meu rumo vem
Mostrar a sua dor plantada nesse chão
Seu rosto brilha em reza, brilha em faca e flor
Histórias vem me contar
Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar
Precisa gritar sua força ê irmão, sobreviver
A morte inda não vai chegar, se a gente na hora de unir
Os caminhos num só, não fugir e nem se desviar
Precisa amar sua amiga, ê irmão e relembrar
Que o mundo só vai se curvar
Quando o amor que em seu corpo já nasceu
Liberdade buscar,
Na mulher que você encontrar
Morte vela sentinela sou
Do corpo desse meu irmão que já se foi
Revejo nessa hora tudo que aprendi, memória não morrerá
Longe, longe, ouço essa voz
Que o tempo não vai levar

sábado, 10 de outubro de 2009

08 de Outubro: Mangueira da Rua Salvador Cardoso completa 94 anos

Plantado no dia 08 de Outubro de 1915, após as 09:00 horas da manhã, em frente a residência e comércio do Sr. Salvador Cardoso, na então vila de Nova Venécia, para homenagear o nascimento de seu filho Romeu Cardoso, após 94 anos, o pé de manga côco permanece belo e frondoso, porém, sofre com a negligência da população e da administração municipal.


Detalhe da “mangueira” da Rua Salvador Cardoso com o “posto” de coleta de lixo bem ao lado de seu tronco quase centenário, tendo ao fundo a secular residência de Salvador Cardoso. A foto é de fevereiro de 2009, porém a imagem permaneceu a mesma até o último domingo (04/10/2009) quando estivemos no local e constatamos que infelizmente nada mudou. Foto: Rogério Frigerio Piva, 19/02/2009.


Por Rogério Frigerio Piva


Seria uma data para ser comemorada, mas sequer foi lembrada pela administração municipal de Nova Venécia. A árvore “Mangueira” da Rua Salvador Cardoso, no centro da cidade de Nova Venécia, se aproxima dos cem anos e praticamente viu a cidade de Nova Venécia nascer, pois, quando foi plantada, ainda não havia sequer o traçado das ruas do centro da cidade, que foi oficializado somente 20 anos depois, em 1935.

A tradição oral das antigas famílias venecianas: Cardoso e Toscano, registram que o plantio da árvore naquele local está relacionado ao nascimento do filho de Salvador Cardoso, chamado Romeu Cardoso [leia transcrição do termo de nascimento de Romeu Cardoso no anexo, ao final desta postagem], em 08 de Outubro de 1915, às 09:00 horas da manhã, na residência de Salvador, esta, milagrosamente ainda existente em frente ao belo pé de manga.
Vista da Rua Salvador Cardoso, no centro da cidade de Nova Venécia, quando ainda se chamava Rua João Pessoa, em 1957, somente no ano seguinte ela foi rebatizada com o nome atual. A quase centenária mangueira ao centro do logradouro, que neste tempo, ainda não possuía pavimentação, mas ostentava todo seu casario. É a rua mais antiga de Nova Venécia, onde ainda existe a casa mais antiga do centro da cidade que pertenceu àquele que hoje dá nome à mesma. Fonte: Enciclopédia dos Municípios Brasileiros, vol. XXII, IBGE, 1959.


Em 15 de Julho de 1988, há 21 anos atrás, um Decreto Municipal de nº 1.302 assinado pelo ex-prefeito Adelson Antônio Salvador, declarou a mangueira “imune de corte” sacramentando assim o seu tombamento a nível municipal. Portanto, Nova Venécia deveria se orgulhar de, em pleno século XXI, possuir, no centro de uma rua, em pleno centro da cidade, uma árvore quase centenária. Inclusive, desconhecemos, pelo menos no nosso estado, outro município que possua uma árvore tombada - protegida - nessas condições.

Apesar de tudo que já foi dito, esse patrimônio natural de Nova Venécia sofre com a negligência da população e da administração municipal. Desde o ano passado, já havíamos alertado, aqui mesmo em nosso blog, para o fato da árvore estar sendo utilizada como posto de coleta de lixo na Rua Salvador Cardoso, fato comum em muitas ruas venecianas, pois a população insiste em colocar fora do horário de coleta, os seus detritos, que muitas vezes acabam por imundiçar as vias venecianas. No caso da mangueira há até uma “oficialização” da administração municipal que, desde a gestão anterior mantém um latão de lixo em frente à mesma.

Mas o problema não pára somente no lixo. Não existe no local, sequer uma placa de sinalização identificando que a árvore é protegida de corte por legislação municipal e informando a sua importância cultural para a História de Nova Venécia. O que deveria ser uma referência “turística” sequer é citado no site oficial da prefeitura. É como se ela não existisse.

Em outra ocasião, já sugerimos, aqui em nosso blog, que deveria ser feita uma remodelação no canteiro que está no entorno da mangueira para valorizar a beleza cênica da rua em conjunto com o casario do início do século XX. Queremos acreditar que, infelizmente, ninguém da administração leu nosso apelo, feito ainda no ano passado [veja os links no final da postagem].

A “mangueira” fica próxima a outro patrimônio de Nova Venécia, a Igreja Matriz de São Marcos. São patrimônios, natural e cultural, que devem ser pensados em conjunto no que diz respeito ao paisagismo. Ambos são símbolos da identidade do povo veneciano e pontos turísticos de nossa cidade. Foto: Rogério Frigerio Piva, 19/02/2009.

Povos antigos, como o celta, acreditavam que uma árvore é, com suas raízes profundas na terra e seus galhos erguendo-se para o céu, uma ligação entre o céu e a terra. Um símbolo incontestável da vida. E não precisamos ir longe, aqui mesmo, o povo botocudo, que habitou por séculos estas terras, dava tanta importância às árvores que acreditava que um “inferno” seria um lugar sem árvores onde o sol queimaria constantemente suas faces. A própria mangueira, segundo a já citada tradição oral, teria servido de local de repouso para os últimos grupos indígenas que existiram em nossa região, quando passavam pela nascente povoação.

Também chamamos atenção para o fato de que, apesar de não ser nativa do Brasil, a manga é abundante em nossa região, em especial no nosso município, podendo ser destacada como uma fruta típica de Nova Venécia.

Acreditamos que deve ser feito um trabalho em conjunto de manutenção, valorização-conscientização e divulgação envolvendo as secretarias municipais de Obras, dos Transportes e Urbanismo; a novíssima Secretaria de Meio Ambiente; bem como as secretarias de Cultura e Turismo e a de Educação.

Numa época em que a preservação ambiental está em destaque rogamos à administração municipal e aos cidadãos venecianos que valorizem e acolham com carinho a NOSSA mangueira um símbolo de vida e um verdadeiro MONUMENTO à memória dos índios que foram literalmente “engolidos” pelo processo de colonização que deu origem ao nosso município. E que venham os cem anos!!!


Anexo

TERMO DE NASCIMENTO de Romeu Cardozo
Transcrito do Livro Nº 03-A de Nascimentos sob nº 1.259 às folhas 122 do Cartório de Registro Civil e Tabelionato da Sede do Município de Nova Venécia (ES) por Rogério Frigerio Piva em 08/09/2009.


[folha 122] Numº 1259 Aos nove dias do mez de Outubro do an- / no de mil novecentos e quinze, neste / segundo districto do Juizo Districtal / do Municipio de São Matheus Estado / Federado do Espírito Santo, compareceu / em meu cartório Salvador Cardozo / e em presença das testemunhas abai- / xo nomeadas e assignadas decla- / rou: Que no dia oito do corrente / mez no lugar denominado – Nova - / Venezia – e casa de sua residencia / ás nove horas nasceu uma crian- / ça do sexo mascolino a qual deu-se / o nome de Romeu Cardozo, filho / legitimo dêlle declarante e D. Felin- / tha Cardozo, naturaes deste Muni- / cipio e residentes neste districto.
Avós paternos José Antonio Cardozo e / D. Liocadia de Almeida Cardozo e ma- / ternos, Ignacio Maciel Toscano e D. Ro- / mana Toscano. Do que para constar / lavrei este termo em que comigo as- / signa o declarante e as testemunhas / Eleosippo Rodrigues da Cunha e / Manoel Antonio da Silva, este lavra- / dor e aquelle negociante residentes / neste districto. Eu Ernesto Ayres Fa- / ria escrivão interino do Juizo Distri- / ctal o escrevi.


[assinaturas] Ernesto Ayres Faria
Salvador Cardozo

Manoel Antonio da Silva.



Para saber mais veja também:

* A Mangueira da Rua Salvador Cardoso , postagem de 25/08/2008

* Decreto Municipal Nº 1.302 de 15/07/1988. Declara imune de corte a "Mangueira" localizada no centro da Rua Salvador Cardoso , postagem de 21/02/2009.

segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Nova Venécia: Terra de diversidade cultural

Vista da Pedra do Elefante a partir do encontro da Praça São Marcos com a Rua Santa Cruz no Centro da cidade de Nova Venécia. Foto: Rogério Piva, 23/04/2009.

Por Izabel Maria da P. Piva*



Andando pelas ruas da cidade, observamos as pessoas. Notamos que possuem uma beleza singular. Seus olhos claros contrastam com a pele morena, ou, por vezes, os cabelos claros descobrem um olhar negro. Pudera! Nova Venécia se fez como terra de muitos povos.

Alguns aqui já estavam senhores deste chão, desta natureza que os protegia e alimentava. Depois vieram outros senhores da sociedade, com seus títulos de nobreza, para fazer produzir sobre a nova terra o café. Representante desta nobreza é o major Antônio Rodrigues da Cunha, agraciado com o título de Barão de Aymorés. Construiu sua fazenda na região onde existem os contrafortes da lendária “Serra dos Aymorés”. Sua casa-grande, conhecida popularmente como “Casarão dos Escravos”, foi palco dessa mistura de povos indígenas, africanos e europeus.

Os africanos trazidos à força para o trabalho escravo, não só construíram a riqueza dos nobres, como deixaram arraigadas na terra, seus costumes e suas histórias. Com o processo de abolição, a mão-de-obra imigrante se fez presente, demonstrando a coragem que possui quem deixa para trás sua terra, mesmo que em busca de novas expectativas, novos sonhos. Também participaram desta saga, nordestinos, mineiros e outros que compõem a nação que chamamos de Brasil.

Aos pés da pedra, hoje denominada, do Elefante, essa gente, de diferentes culturas, iniciou a construção de um povo. A pluralidade deste povo se faz presente em sua comida, que é uma mistura de cores e sabores. Além da polenta, da taiadella, da minestra e do pão caseiro, encontramos a carne de porco frita e acebolada, perfumando o entorno de nossas casas. Caminhamos um pouco mais e sentimos o cheiro do alho queimado, preparado para refogar a couve, influência dos mineiros. Entramos nas padarias e encontramos os biscoitos de polvilho, aqui chamados de “maluco”. Não podemos esquecer do cafezinho, dos biscoitos caseiros, do queijo mineiro, dos doces da roça, em especial, o de mamão verde.

Na época da Semana Santa é uma festa! O amendoim torrado espalha seu aroma, temperando as panelas de canjica, que não podem faltar. E tem a torta de palmito (ou repolho), influência portuguesa agregada à região. Quem resiste a uma terra com tantos sabores diferentes?!

Continuando nosso passeio nos deparamos com as varandas cheias de plantas e flores, as hortas nos quintais, as árvores dando sombra à tardezinha. Para quem vem de fora é um deleite observar a delicadeza desses quintais. Observa-se um tapete de retalhos em uma dessas varandas, fruto do artesanato local. Na sala da casa, almofadas em forma de coração. Na cozinha, panos de prato, marcados com tanta precisão. As mãos incansáveis de algumas mulheres da região, muitas vezes do interior do município, despertam em nós, um tempo de delicadeza. Ao passar em outras varandas, redes e cadeiras de madeira e palha, estas, feitas pelos Merlin, artesanato secular trazido da Itália por esta família e, que nos fazem lembrar das tardes em companhia de nossos avós. Pode haver sensação melhor?!
Passear mais um pouco pelo centro da cidade, observar o casario antigo ainda existente, ir à Matriz, de arquitetura tão aconchegante, visitar praças, deleitar-se com o rio Cricaré e suas águas mansas.

A Escadaria "Jamilli Daher Rocha", desde 1957, faz a ligação entre a Rua Eurico Salles e a Avenida Vitória no Centro de Nova Venécia. Diz-se que seu estilo foi inspirado na Escadaria Maria Ortiz em Vitória. É obra da gestão do ex-prefeito Zenor Pedroza Rocha (1955-1958) quando chamava-se simplesmente Escadaria da Travessa Itapemirim. Em 2003, na segunda gestão do ex-prefeito Adelson Antônio Salvador, foi restaurada e rebatizada com o nome da saudosa dona Jamilli, esposa do Sr. Zenor. Foto: Rogério Frigerio Piva, 23/04/2009.
Á tardezinha, na margem do rio, um ingazeiro serve de repouso para garças brancas. O pôr-do-sol, nas montanhas, traz aos nossos olhos, luzes coloridas, como a anunciar a noite estrelada e enluarada do céu “veneciano”. Visitamos ainda a Casa de Pedra do Perletti, com seu ar misterioso, o Centro Cultural Casarão, à beira da Cachoeira Grande, no coração da cidade, e a frondosa mangueira da Rua Salvador Cardoso, árvore esta, que vem testemunhando todo desenrolar da História desta cidade, rica em pequenos deleites que nos fazem sonhar.

Como partes dos costumes da região, encontramos as festas populares, mistura de danças e folguedos, raízes de nossa cultura. Procissões, cantorias e missas compõem a festa da capela de Santo Antônio do Córrego da Serra, que ainda tem os caldos, os doces, as roletas de frango assado, as quadrilhas e os namoros (afinal, é Santo Antônio!). Despertam saudades também as festividades do padroeiro São Marcos.

Seu leão, que impõe tanto respeito, e está sob a forma de escultura de bronze, na fachada da Matriz, foi disputado com a colônia de Nova Veneza (SC), nos anos 1920. Nesta época o governo da Itália teria presenteado a cidade catarinense com tal regalo. No entanto, a tripulação do navio que trouxe o presente, ao aportar em Vitória, escala para os portos do sul, revelou que esse seria dado à “Nuova Venezia, America dell’Sud”. Pronto, a confusão estava armada! Aqui também tínhamos uma “Nuova Venezia”, ao oeste da velha cidade de São Mateus, para a qual, o leão foi enviado. Dizem que, ao saber do desvio do seu presente, os catarinenses pensaram até em se armar, caso fosse necessário, para vir buscar o seu leão de bronze. Mas era tarde, esse fora tomado nos braços pela nossa população. A questão somente foi resolvida quando a Itália enviou outro leão, que até hoje também guarda a fachada da Matriz de São Marcos, na cidade de Nova Veneza, em Santa Catarina.
Escultura em alto relevo de broze representando o "leão alado de São Marcos" existente na fachada da Igreja Matriz de São Marcos. Em 1925, antes mesmo da construção da primeira igreja de São Marcos, esta escultura italiana foi recebida com festa na insipiente Vila de Nova Venécia. Foto: Rogério Frigerio Piva, 23/04/2009.

Escutamos música ao longe, além das influências baianas e cariocas, nos deparamos com nossas raízes sertanejas. Mas temos também música composta em nosso município, cheirando a terra molhada pela chuva, depois que, nas orações, pedimos a Deus o fim da estiagem. Basta buscar para ouvir o som da Lira Matheus Toscano, do Coral Italiano Augusto Zaché, do Grupo Engenho Novo ou da Banda Última Hora (UH) e outras expressões musicais que aqui tiveram e devem ter vez.

Presenciamos ainda, a folia-de-reis e suas cantorias, que precisam ser resgatadas e divulgadas. É muito bom ver as janelas e portas se abrindo para a chegada dos cantadores do Jesus-menino. Suas músicas, seu colorido, seu ritmo, retratam a religiosidade de uma cultura composta de grande influência nordestina. Os autos religiosos, contando o nascimento, vida e paixão de Cristo fazem parte desse cenário cultural, como representação cênica maior e mais tradicional. Encenados por atores amadores, não podem faltar na Sexta-feira Santa.

É assim, da mistura de todos os povos, da união da concertina, da sanfona e do triângulo, dessa cultura ítalo-nordestina, com aspectos de africanidade, indigenidade, recebendo ainda influência mineira, pomerana e tantas mais, que se fez Nova Venécia. Não se pode deixar morrer estas tradições. Não podemos nos esquecer de quem fomos, dos que vieram antes de nós e abriram caminhos para que pudéssemos ir além. Precisamos resgatar o orgulho de ser veneciano!

Devemos cuidar de nossa cidade e admirá-la. Conhecer e preservar nossa memória e nossos costumes nos faz únicos em um mundo de cultura massificante. Quando sabemos quem somos, nos fortalecemos em nossa identidade. E assim, construímos cidadania.


*Izabel Maria da P. Piva é historiadora graduada e mestra em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo onde produziu a dissertação "SOB O ESTIGMA DA POBREZA: A Ação da Irmandade da Misericórdia no Atendimento à Pobreza em Vitória - Espírito Santo (1850-1889)", defendida em 2005. Vem atuando no magistério, seja na educação infantil, ensino fundamental e médio, há mais de 15 anos. É professora na Escola Estadual de Ensino Médio “Dom Daniel Comboni”, em Nova Venécia. É colaboradora do Projeto Pip-Nuk.

ATENÇÃO!!!

Este blog é específico para difusão e estudo do patrimônio natural e cultural do município de Nova Venécia, bem como, tudo que norteia a sua cultura, memória e meio ambiente. A utilização, do material aqui disponibilizado (seja texto ou imagem), por qualquer veículo de comunicação, deve ser previamente solicitada ao Projeto Pip-Nuk por meio do e-mail: projetopipnuk@yahoo.com.br e jamais poderá ser publicada sem menção ao seu autor (quando houver) e ao respectivo blog.