segunda-feira, 7 de setembro de 2009

Nova Venécia: Terra de diversidade cultural

Vista da Pedra do Elefante a partir do encontro da Praça São Marcos com a Rua Santa Cruz no Centro da cidade de Nova Venécia. Foto: Rogério Piva, 23/04/2009.

Por Izabel Maria da P. Piva*



Andando pelas ruas da cidade, observamos as pessoas. Notamos que possuem uma beleza singular. Seus olhos claros contrastam com a pele morena, ou, por vezes, os cabelos claros descobrem um olhar negro. Pudera! Nova Venécia se fez como terra de muitos povos.

Alguns aqui já estavam senhores deste chão, desta natureza que os protegia e alimentava. Depois vieram outros senhores da sociedade, com seus títulos de nobreza, para fazer produzir sobre a nova terra o café. Representante desta nobreza é o major Antônio Rodrigues da Cunha, agraciado com o título de Barão de Aymorés. Construiu sua fazenda na região onde existem os contrafortes da lendária “Serra dos Aymorés”. Sua casa-grande, conhecida popularmente como “Casarão dos Escravos”, foi palco dessa mistura de povos indígenas, africanos e europeus.

Os africanos trazidos à força para o trabalho escravo, não só construíram a riqueza dos nobres, como deixaram arraigadas na terra, seus costumes e suas histórias. Com o processo de abolição, a mão-de-obra imigrante se fez presente, demonstrando a coragem que possui quem deixa para trás sua terra, mesmo que em busca de novas expectativas, novos sonhos. Também participaram desta saga, nordestinos, mineiros e outros que compõem a nação que chamamos de Brasil.

Aos pés da pedra, hoje denominada, do Elefante, essa gente, de diferentes culturas, iniciou a construção de um povo. A pluralidade deste povo se faz presente em sua comida, que é uma mistura de cores e sabores. Além da polenta, da taiadella, da minestra e do pão caseiro, encontramos a carne de porco frita e acebolada, perfumando o entorno de nossas casas. Caminhamos um pouco mais e sentimos o cheiro do alho queimado, preparado para refogar a couve, influência dos mineiros. Entramos nas padarias e encontramos os biscoitos de polvilho, aqui chamados de “maluco”. Não podemos esquecer do cafezinho, dos biscoitos caseiros, do queijo mineiro, dos doces da roça, em especial, o de mamão verde.

Na época da Semana Santa é uma festa! O amendoim torrado espalha seu aroma, temperando as panelas de canjica, que não podem faltar. E tem a torta de palmito (ou repolho), influência portuguesa agregada à região. Quem resiste a uma terra com tantos sabores diferentes?!

Continuando nosso passeio nos deparamos com as varandas cheias de plantas e flores, as hortas nos quintais, as árvores dando sombra à tardezinha. Para quem vem de fora é um deleite observar a delicadeza desses quintais. Observa-se um tapete de retalhos em uma dessas varandas, fruto do artesanato local. Na sala da casa, almofadas em forma de coração. Na cozinha, panos de prato, marcados com tanta precisão. As mãos incansáveis de algumas mulheres da região, muitas vezes do interior do município, despertam em nós, um tempo de delicadeza. Ao passar em outras varandas, redes e cadeiras de madeira e palha, estas, feitas pelos Merlin, artesanato secular trazido da Itália por esta família e, que nos fazem lembrar das tardes em companhia de nossos avós. Pode haver sensação melhor?!
Passear mais um pouco pelo centro da cidade, observar o casario antigo ainda existente, ir à Matriz, de arquitetura tão aconchegante, visitar praças, deleitar-se com o rio Cricaré e suas águas mansas.

A Escadaria "Jamilli Daher Rocha", desde 1957, faz a ligação entre a Rua Eurico Salles e a Avenida Vitória no Centro de Nova Venécia. Diz-se que seu estilo foi inspirado na Escadaria Maria Ortiz em Vitória. É obra da gestão do ex-prefeito Zenor Pedroza Rocha (1955-1958) quando chamava-se simplesmente Escadaria da Travessa Itapemirim. Em 2003, na segunda gestão do ex-prefeito Adelson Antônio Salvador, foi restaurada e rebatizada com o nome da saudosa dona Jamilli, esposa do Sr. Zenor. Foto: Rogério Frigerio Piva, 23/04/2009.
Á tardezinha, na margem do rio, um ingazeiro serve de repouso para garças brancas. O pôr-do-sol, nas montanhas, traz aos nossos olhos, luzes coloridas, como a anunciar a noite estrelada e enluarada do céu “veneciano”. Visitamos ainda a Casa de Pedra do Perletti, com seu ar misterioso, o Centro Cultural Casarão, à beira da Cachoeira Grande, no coração da cidade, e a frondosa mangueira da Rua Salvador Cardoso, árvore esta, que vem testemunhando todo desenrolar da História desta cidade, rica em pequenos deleites que nos fazem sonhar.

Como partes dos costumes da região, encontramos as festas populares, mistura de danças e folguedos, raízes de nossa cultura. Procissões, cantorias e missas compõem a festa da capela de Santo Antônio do Córrego da Serra, que ainda tem os caldos, os doces, as roletas de frango assado, as quadrilhas e os namoros (afinal, é Santo Antônio!). Despertam saudades também as festividades do padroeiro São Marcos.

Seu leão, que impõe tanto respeito, e está sob a forma de escultura de bronze, na fachada da Matriz, foi disputado com a colônia de Nova Veneza (SC), nos anos 1920. Nesta época o governo da Itália teria presenteado a cidade catarinense com tal regalo. No entanto, a tripulação do navio que trouxe o presente, ao aportar em Vitória, escala para os portos do sul, revelou que esse seria dado à “Nuova Venezia, America dell’Sud”. Pronto, a confusão estava armada! Aqui também tínhamos uma “Nuova Venezia”, ao oeste da velha cidade de São Mateus, para a qual, o leão foi enviado. Dizem que, ao saber do desvio do seu presente, os catarinenses pensaram até em se armar, caso fosse necessário, para vir buscar o seu leão de bronze. Mas era tarde, esse fora tomado nos braços pela nossa população. A questão somente foi resolvida quando a Itália enviou outro leão, que até hoje também guarda a fachada da Matriz de São Marcos, na cidade de Nova Veneza, em Santa Catarina.
Escultura em alto relevo de broze representando o "leão alado de São Marcos" existente na fachada da Igreja Matriz de São Marcos. Em 1925, antes mesmo da construção da primeira igreja de São Marcos, esta escultura italiana foi recebida com festa na insipiente Vila de Nova Venécia. Foto: Rogério Frigerio Piva, 23/04/2009.

Escutamos música ao longe, além das influências baianas e cariocas, nos deparamos com nossas raízes sertanejas. Mas temos também música composta em nosso município, cheirando a terra molhada pela chuva, depois que, nas orações, pedimos a Deus o fim da estiagem. Basta buscar para ouvir o som da Lira Matheus Toscano, do Coral Italiano Augusto Zaché, do Grupo Engenho Novo ou da Banda Última Hora (UH) e outras expressões musicais que aqui tiveram e devem ter vez.

Presenciamos ainda, a folia-de-reis e suas cantorias, que precisam ser resgatadas e divulgadas. É muito bom ver as janelas e portas se abrindo para a chegada dos cantadores do Jesus-menino. Suas músicas, seu colorido, seu ritmo, retratam a religiosidade de uma cultura composta de grande influência nordestina. Os autos religiosos, contando o nascimento, vida e paixão de Cristo fazem parte desse cenário cultural, como representação cênica maior e mais tradicional. Encenados por atores amadores, não podem faltar na Sexta-feira Santa.

É assim, da mistura de todos os povos, da união da concertina, da sanfona e do triângulo, dessa cultura ítalo-nordestina, com aspectos de africanidade, indigenidade, recebendo ainda influência mineira, pomerana e tantas mais, que se fez Nova Venécia. Não se pode deixar morrer estas tradições. Não podemos nos esquecer de quem fomos, dos que vieram antes de nós e abriram caminhos para que pudéssemos ir além. Precisamos resgatar o orgulho de ser veneciano!

Devemos cuidar de nossa cidade e admirá-la. Conhecer e preservar nossa memória e nossos costumes nos faz únicos em um mundo de cultura massificante. Quando sabemos quem somos, nos fortalecemos em nossa identidade. E assim, construímos cidadania.


*Izabel Maria da P. Piva é historiadora graduada e mestra em História Social das Relações Políticas pela Universidade Federal do Espírito Santo onde produziu a dissertação "SOB O ESTIGMA DA POBREZA: A Ação da Irmandade da Misericórdia no Atendimento à Pobreza em Vitória - Espírito Santo (1850-1889)", defendida em 2005. Vem atuando no magistério, seja na educação infantil, ensino fundamental e médio, há mais de 15 anos. É professora na Escola Estadual de Ensino Médio “Dom Daniel Comboni”, em Nova Venécia. É colaboradora do Projeto Pip-Nuk.

quinta-feira, 3 de setembro de 2009

Conversa sobre “lendas venecianas” na EMEF Dr. Adalton Santos

"Conversando" sobre "Lendas Venecianas" com alunos da EMEF Dr. Adalton Santos. Foto: Mônica Rodor, 20/08/2009.

No dia 20/08/2009, quinta-feira, após convite da professora de Artes, Mônica Rodor, nos reunimos por volta das 08h30min da manhã, no auditório da Escola Municipal de Ensino Fundamental “Dr. Adalton Santos”, com cerca de cinco turmas de alunos do 6º ao 9º ano do turno matutino.

O tema da palestra, ou melhor, “conversa” foram as “lendas venecianas”. Foram aproximadamente 40 minutos. Primeiramente, apresenta-mos o blog “LENDAS VENECIANAS”, do qual somos colaboradores, e que foi criado pelo professor Rodrígo Frigerio Piva, em maio de 2007. O prof. Rodrígo Piva leciona língua espanhola na EEEM Dom Daniel Comboni.

O blog "Lendas Venecianas" do prof. Rodrígo Piva, está no ar desde maio de 2007, e já recebeu milhares de acessos. Foto com Montagem: Rodrígo Piva, 2009.


Na seqüência citamos as histórias de assombrações relacionadas ao hoje extinto “casarão dos escravos”, falamos também sobre as lendas do “saci pererê” muito conhecidas dos antigos venecianos e, por fim, da famosa lenda veneciana da “mulher que virou serpente”. Quem quiser saber mais sobre essas e outras lendas é só acessar o blog: http://www.lendasvenecianas.blogspot.com/ .



O auditório da EMEF Dr. Adalton Santos ficou lotado de alunos que ouviram sobre as "lendas venecianas". Foto: EMEF Dr. Adalton Santos, 20/08/2009.


O dia 22 de agosto é comemorado em todo Brasil como o “dia do folclore”. Atualmente todo mês de agosto vem se tornando um período de referência para abordar o folclore brasileiro e regional. E o Projeto Pip-Nuk aceitando o convite da EMEF Dr. Adalton Santos, apresentou aos jovens alunos um pouco das lendas regionais que enriquecem o patrimônio cultural imaterial de Nova Venécia. Afinal, divulgar nossas lendas é uma maneira de mantê-las vivas, impedindo que elas sejam esquecidas e desapareçam.



"Conversando" sobre "Lendas Venecianas" com alunos da EMEF Dr. Adalton Santos. Foto: EMEF Dr. Adalton Santos, 20/08/2009.


Mais uma vez agradecemos a toda equipe da EMEF “Dr. Adalton Santos”, que sempre nos acolhe com muito carinho, pela oportunidade de falar sobre nossa terra aos jovens.

terça-feira, 25 de agosto de 2009

Mestre de Folia de Reis de Nova Venécia é premiado na Edição 2009 do Prêmio “MESTRE ARMOJO DO FOLCLORE CAPIXABA”


Mestre Anízio, aqui ostentando traje típico, foi reconhecido pelo seu trabalho de dedicação com o Grupo de Folia de Reis “Sois Reis”, recebendo o Prêmio de 10 mil reais, constante do Edital 13 da Secretaria de Estado da Cultura – Secult, intitulado “Mestre Armojo do Folclore Capixaba”. Foto: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Nova Venécia, 2009.


A Cultura do Norte do Espírito Santo e, em especial, o nosso município de Nova Venécia, tem muito a festejar pela premiação recebida pelo “Mestre Anízio” do Grupo de Folia de Reis “Sois Reis”, grupo este, que vem atuando desde 2001 em Nova Venécia.
Sobre a Folia de Reis, manifestação folclórica que faz parte do Patrimônio Cultural (Imaterial) Veneciano, há testemunhos de que é realizada desde o início do século XX no território do nosso município. E, seguramente, merece todo apoio e atenção por parte do governo municipal para sua preservação/perpetuação. Agora que o esforço de décadas foi reconhecido pelo governo do Estado, avista-se o maior desafio: fazer os nossos jovens identificarem a Folia de Reis como sua herança cultural, para que esta tradição não se apague com o tempo.

Segue abaixo, a íntegra da notícia vinculada, no último dia 20, no site da Prefeitura Municipal:

Prêmio de R$ 10 mil para Mestre da Folia de Reis de Nova Venécia

Assessoria de Comunicação – Através do Projeto Editais da Cultura, lançado pelo Governo do Estado, por meio da Secretaria da Cultura (Secult), em março deste ano, o Mestre de Folia de Reis de Nova Venécia, Anízio Antônio da Silva, 62, acaba de faturar R$ 10 mil como prêmio pelas ações em prol da cultura em pelo menos 28 anos de sua vida.

O veneciano foi o único artista da Folia de Reis contemplado no Norte do Estado, em meio a 200 concorrentes. O titulo faz parte do concurso específico da Folia de Reis, intitulado Mestre Armojo do Folclore Capixaba.

Em Nova Venécia a cultura é tratada com prioridade pela Secretaria de Cultura e Turismo. O Mestre premiado faz parte do grupo Sois Reis, que desde 2001 se apresenta em escolas e municípios da região.

Após a conquista, a intenção do Secretário de Cultura de Nova Venécia, Otamir Carloni é promover uma noite de folclore no Centro Cultural Casarão. “Além disso, vamos tentar fixar o senhor Anízio nos quadros efetivos da cultura veneciana, com o intuito de fortalecer os grupos mirins e resgatar os jovens para a Folia de Reis veneciana”, declara Carloni.

Valorização – O prêmio recebido pela Folia de Reis veneciana faz parte do projeto Editais da Cultura, lançado com 18 Editais de Incentivo à Cultura, que premia artistas de todo o Estado em vários vértices.

O objetivo é incentivar a formação e fomentar a criação, a produção e a distribuição de produtos e serviços que usem o conhecimento, a criatividade e o capital intelectual como principais recursos produtivos, e tornar a atividade cultural uma importante estratégia nos programas de desenvolvimento capixaba.



O Coordenador Cultural Oscar Ferreira, Mestre Anízio e o Secretário de Cultura e Turismo de Nova Venécia Otamir Carloni. O governo municipal está de parabéns por apoiar uma das mais tradicionais manifestações folclóricas de Nova Venécia. Torcemos para que esta "parceria" continue dando frutos e que a população veneciana se identifique e reconheça a Folia de Reis como parte de sua herança cultural. Foto: Assessoria de Comunicação da Prefeitura de Nova Venécia, 2009.


Fonte: “Prêmio de R$ 10 mil para Mestre da Folia de Reis de Nova Venécia” disponível em http://www.novavenecia.es.gov.br/banco/noticias.php?id=236 , acessado em 25/08/2009. Sobre o Prêmio veja também “Secult publica resultado de mais três editais de incentivo à cultura” disponível em http://www.secult.es.gov.br/?id=/noticias/materia.php&cd_matia=1175 , acessado em 25/08/2009.

Quem foi “Mestre Armojo” ou “Hermógenes Lima Fonseca” (1916-1996)?*
O folclorista, historiador e escritor Hermógenes Lima Fonseca, natural de Conceição da Barra, Espírito Santo, foi uma das maiores autoridades na cultura e nos costumes populares capixabas.
Presidente da Comissão Espírito-Santense de Folclore, membro da Academia Espírito Santense de Letras e do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Hermógenes é autor de inúmeras obras sobre o folclore capixaba e o povo da região.

*Fonte: “O folclore do Espírito Santo” disponível em http://www.aracruz.com.br/show_cmd.do?act=stcNews&menu=false&id=1523&lang=1 , acessado em 25/08/2009.


O Ticumbi, as Bandas de Congo, o Alardo, o Reis de Boi, a Folia de Reis, foram folguedos pesquisados pelo saudoso “Mestre Armojo” e, magistralmente, apresentados no seu livro “Tradições Populares no Espírito Santo” publicado, em 1991, pelo extinto Departamento Estadual de Cultura, do qual extraímos alguns trechos:

[A Significação dos folguedos folclóricos no Espírito Santo]**

Por Hermógenes Lima Fonseca (Mestre Armojo)

(...)
Esses folguedos são autos litúrgicos profanos, ligados aos festejos religiosos católicos, remontam a séculos. Atualmente apenas em alguns lugares são toleradas pela igreja, que ignora a sua origem e sua importância na demonstração da crença popular, uma forma da manifestação da fé que tem o povo aos seus santos protetores.
(...)
O expontaneismo de suas criações é a característica principal quando se observa com acuidade a música que cantam, a coreografia e a letra dos cantos.
É o teatro do povo no ambiente em que vive, a céu aberto, nas ruas ou em suas casinhas apertadas para se divertirem e ao povinho que assiste, prestigiando e valorizando esses numerosos grupos existentes por todos os cantos do Espírito Santo.

**Fonte: “Folclore do ES” – “A Significação” disponível em http://www.seculodiario.com/folclore/tradicoes/index3.htm acessado em 25/08/2009. O texto pertence à obra: FONSECA, Hermógenes Lima. Tradições populares no Espírito Santo. Vitória: Depto. Estadual de Cultura, Divisão de Memória, 1991.

sábado, 15 de agosto de 2009

101 Anos de São Roque do Pip-Nuk (1908-2009): A religiosidade popular no Canaã Veneciano

Capela de São Roque do Pip-Nuk em dia de festa no mês de agosto. A arquitetura simples da 4ª e atual capela, edificada em devoção a São Roque no Pip-nuk, sempre guardada pelo sino adquirido pelos MILLERI em 1909, há exatos cem anos atrás. Foto: Rogério Frigerio Piva, 1998.


Por Rogério Frigerio Piva*

No estado do Espírito Santo a devoção ao santo francês, nascido em Montpellier, na França, no ano de 1295 e cujo nome é Roque, possui muita popularidade, principalmente nos núcleos de colonização italiana. A sua festa é celebrada pela Igreja Católica no dia 16 de Agosto, época em que várias comunidades do interior promovem suas tradicionais festividades.
Existe no nosso estado, um município que possui seu nome. É São Roque do Canaã, emancipado a alguns anos do antigo município de Santa Teresa. Em nossa região, próximo à Nova Venécia, no município de São Gabriel da Palha, temos o povoado de São Roque da Terra Roxa. Cito apenas estes para exemplificar minha afirmação.

Em Nova Venécia os imigrantes também cultivaram essa devoção ao santo, tido como homem que cuidou do sofrimento humano (causado, pela peste que assolou a Europa de seu tempo) e, ao qual, é atribuída a seguinte frase: Desejo que todo aquele que invocar o meu nome fique curado e livre da peste.

No ano de 1891, no mês de dezembro, em Vitória, desembarcavam mais de mil imigrantes chegados do porto de Gênova, na Itália, vindos no navio Birmânia.

Após alguns dias na Hospedaria dos Imigrantes da Pedra d’Água (hoje penitenciária - IRS) situada na baía de Vitória, viriam para São Mateus de onde seguiriam para a região da Serra dos Aymorés (hoje Nova Venécia), onde se localizavam grandes fazendas de café, dentre elas a do coronel Matheus Gomes da Cunha, a fazenda Boa Esperança (hoje Serra de Cima) na qual a maioria deles se fixaria como diaristas ou meeiros.

Já corria o ano de 1892 quando o Governo do Estado criou o núcleo colonial Nova Venécia e colocou em sua direção o Dr. Antônio dos Santos Neves. Dentre as seções do núcleo, estava uma que se situava logo acima da sede (esta, conhecida como “Barracão”) e que fazia referência aos antigos habitantes da região, os índios da tribo Jiporok, nação Botocudo, conhecidos também por Aymorés. Era a Seção Pip-Nuk, nome que na língua borum, falada pelos índios, significa: eu não vi, e que a tradição oral registra como sendo o nome de seu último líder.

Mas o que destacamos é que no vale do rio Cricaré, no trecho conhecido por Pip-Nuk, floresceu uma das mais prósperas comunidades italianas do norte do estado, no século XIX e início do XX. E este, constitui hoje um dos sítios históricos mais importantes do município de Nova Venécia, tão importante quanto a região da APA da Pedra do Elefante.

Naquela época (1892) o Governo do Estado, dividiu o vale em lotes retangulares com área de 300.000 metros quadrados e os distribuiu a famílias de imigrantes que após algum tempo deveriam pagar suas dívidas geradas pela aquisição do lote.

Os colonos italianos pioneiros no Pip-Nuk foram àqueles chegados no navio a vapor italiano Birmânia, em dezembro de 1891 e, dentre eles, lembramos, para tirar do anonimato, as famílias: LIVIO, DELLAVEDOVA, OLIVIERI, FRIZIERO (hoje FRIGERIO), MAZARIN, ZANON, CAPELLETO, VIDOTTO, GASPARINI, BERCAVELLO, PACCAGNAN, BRAIDA, BIRAL, CEBIN, PUTTIN, CONTARATTO, FONTANA, CALATRONI, BUSATTO, MARCARINI, LAVAGNOLI, FERRUGIN, SABADINI, CHIAROTTI (hoje CHEROTTO), MESTRINELLI, SELVATICO e MILLERI.

Impossível não falar dos MILLERI, pois foi pela devoção dessa família que surgiu a capela de São Roque no Pip-Nuk, uma das mais antigas de Nova Venécia.

A família MILLERI, na época de sua chegada, era composta pelo patriarca Luigi, sua esposa AVOGARA Marianna e mais seis filhos, dentre eles, Serafino que tinha apenas cinco anos de idade quando chegou. Vinham de um lugar chamado Soave, na milenar província de Verona, pertencente à região do Vêneto, no norte da Itália.

Os MILLERI tinham um lote colonial, situado na margem direita do rio Cricaré, um pouco acima da cachoeira do Pip-Nuk onde ergueram a primeira capela de São Roque do Pip-Nuk, no ano de 1908. Compraram o sino, que ainda hoje é utilizado na capela, pela quantia de cento e cinqüenta mil réis paga ao Sr. José Valentim da Silva, representante do Dr. Arlindo Gomes Sudré, que devia ser o proprietário do mesmo, conforme recibo assinado por ele em 1º de setembro de 1908. Esse sino é centenário e, segundo alguns, teria pertencido a fazenda do Barão de Aymorés.

No ano de 1908, foi esculpida pelo imigrante italiano Celeste Rizzo, escultor que residia em Santa Leocádia, há aproximadamente 23 km de São Mateus, a imagem de São Roque, toda em madeira. Quanto à imagem de São Benedito, esta, pertencia à fazenda Boa Esperança e foi entregue aos MILLERI por Álvaro Gomes da Cunha, filho do coronel Matheus Cunha como atesta uma carta que data de 05 de março de 1909.


Detalhe do altar da capela de São Roque do Pip-Nuk. Além da típica escultura de São Roque feita em madeira pelo imigrante Celeste Rizzo, em 1908, existem outras como a de São Benedito, também centenária, que pertenceu a capela da Fazenda Boa Esperança do Coronel Matheus Cunha e que foi doada pelo filho deste, Álvaro, em 1909 para capela dos Milleri. Imagens de Nossa Senhora e do próprio Cristo, estas bem mais recentes, também fazem parte do acervo da capela que, desde os anos 1960, encontra-se na propriedade da família de Augusto Frigerio. Foto: Rogério Frigerio Piva, 1998.

È provável que antes de 1908, já houvesse algum capitello, uma espécie de oratório, como era o costume. Sabe-se que no caso da Capela de São Sebastião, situada mais acima e contemporânea a São Roque Pip-Nuk, o capitello existiu. Quanto à capela de Santa Rita, já no Alto Pip-Nuk, esta é de construção bem mais recente.

O Sr. Serafino MILLERI foi quem tomou a frente e cuidou da capela que estava construída próxima à residência da família, próxima a margem sul do rio Cricaré.

Os padres Carlo Regattieri e Francisco Traverso constam como os primeiros a assistir a capela, nos primeiros anos. Depois outros vieram e a própria capela serviu de escola.

As festas anuais e as procissões faziam todo o povo se reunir, mesmo os que não residiam no Pip-Nuk. Na década de 1920 chegaram a fazer uma procissão onde trouxeram a imagem de Santo Antônio do Córrego da Serra para o Pip-Nuk e levaram a de São Roque para o Córrego da Serra, tudo por causa da estiagem.

Milagre ou não, o fato é que as preces foram respondidas com muita chuva e uma enchente que destruiu parte da ponte velha (hoje no centro da cidade) que tinha acabado de ser construída.
Não só italianos, mas também brasileiros como as famílias: FARIAS, ELIAS, LIMA, CAYRU e SÁ (perdoem as omissões) freqüentaram São Roque.

Como o tempo, a primitiva capela foi substituída por outra, mais distante da margem do rio, devido à erosão, mas ainda no lote dos MILLERI.

Enquanto o Sr. Serafino viveu no Pip-Nuk, a capela permaneceu na propriedade dos MILLERI, mas como a vila e posterior cidade de Nova Venécia, começava a desenvolver-se, ele mudou para lá, o que fez com que a capela fosse transferida, por volta de 1961, para o outro lado do rio, na propriedade dos FRIGERIO, em local próximo à cachoeira do Pip-Nuk. Também esta terceira capela teve vida curta e foi transferida para o local onde se encontra até os dias de hoje (2009), ainda na propriedade da família de Augusto Frigerio.

Durante as décadas de 1960 e 1970 o êxodo rural esvaziou o vale da presença de inúmeras famílias que, a exemplo do Sr. Serafino foram para cidade, para outros municípios ou mesmo estados.

Mas a família FRIGERIO, como herdeira dessas relíquias religiosas, conseguiu permanecer no Pip-Nuk, no mesmo lote que o patriarca Giuseppe FRIZIERO escolhera, em 1910, para viver e onde, em 1929, construiu a sua residência, raro exemplar da arquitetura italiana produzida pelos imigrantes no Pip-Nuk.

Todos esses marcos são representativos da cultura e religiosidade em Nova Venécia, que, como em outras regiões, é marcada pela simplicidade e rusticidade popular, verdadeiro exemplo de devoção cristã.


NOTA: Outra versão do presente artigo foi publicada com o título “A Religiosidade Popular no Canaã Veneciano” no jornal “Folha do Estado” em 05/10/2002.


*Rogério Frigerio Piva é natural de Nova Venécia. Historiador graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa sobre a História de Nova Venécia desde 1992. Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Trabalhou por 10 anos no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo onde ocupou diversos cargos. Atualmente é Professor de História e Filosofia do Centro Educacional Evolução.

ATENÇÃO!!!

Este blog é específico para difusão e estudo do patrimônio natural e cultural do município de Nova Venécia, bem como, tudo que norteia a sua cultura, memória e meio ambiente. A utilização, do material aqui disponibilizado (seja texto ou imagem), por qualquer veículo de comunicação, deve ser previamente solicitada ao Projeto Pip-Nuk por meio do e-mail: projetopipnuk@yahoo.com.br e jamais poderá ser publicada sem menção ao seu autor (quando houver) e ao respectivo blog.