Foi em 1888 e não em 1890 que chegaram os primeiros italianos às terras do atual município de Nova Venécia. Esta pesquisa, ainda em andamento, já constatou que, entre 1888 e 1897, mais de 600 italianos (dentre homens e mulheres, adultos e crianças) chegaram a estas terras.
Devemos compreender que neste momento, o preconceito dos antigos senhores, aliado à sede de liberdade dos ex-escravos, foram os principais fatores que levaram a crise da mão-de-obra que sobreveio nas fazendas. Muitos fazendeiros não admitiam o fato de tratar como empregados assalariados aqueles que haviam sido sua propriedade, presos como estavam à antiga mentalidade escravista. Por outro lado, muitos escravos, ao se verem livres, abandonavam as fazendas que tantas lembranças ruins lhes traziam.
Havia ainda a intenção do Governo Imperial que visava “embranquecer” a população com a introdução de imigrantes europeus. Nesta época, a maioria dos habitantes de São Mateus era negra.
Em outubro de 1888 o núcleo recebeu a sua primeira leva de imigrantes italianos. Vieram no navio a vapor Ádria. Este navio, ou bastimento, como diziam os velhos italianos, pertencia à companhia Navigazione Generale Italiana – NGI e tinha a capacidade de transportar aproximadamente 1.500 passageiros por viagem. Era um dos mais velozes, percorrendo o trajeto Gênova a Vitória entre vinte e vinte e um dias. Esses imigrantes, chegando a Vitória, fizeram “quarentena” em uma hospedaria improvisada no centro da cidade, aguardando o navio Mathilde, de bandeira nacional, que fazia linha regular entre o Rio de Janeiro e o Sul da Bahia passando pelo Espírito Santo. O embarque no Mathilde se deu a 1º de outubro e, de Vitória, seguiram para o porto de São Mateus, onde desembarcaram dois ou três dias depois, ou seja, há exatos 124 anos atrás.
1888: As primeiras famílias italianas chegam a Serra dos Aymorés.
Eram 87 pessoas naturais das regiões da Lombardia e do Vêneto, norte da Itália, que, ao chegarem a São Mateus foram alojadas em um barracão localizado em terreno aos fundos do cemitério da cidade. Grande deve ter sido a curiosidade tanto de italianos quanto de mateenses, devido ao contraste de culturas.- Para a Fazenda da Serra dos Aymorés (Serra de Baixo), pertencente ao major Antônio Rodrigues da Cunha, foram encaminhadas as famílias de: Giovanni BERTOLDI, Giovanni Battista CORRADINI e da viúva Maria ZANFERRARI (Família PONTARA), num total de 13 pessoas.
- Para a Fazenda da Boa Esperança (Serra de Cima), do comendador Matheus Gomes da Cunha foram as famílias de: Domenico SARTORI, Domenico BASSI, Domenico PERUZZI, Antonio ZANETTI e Angelo MANZANI totalizando 14 pessoas.
- Para a Fazenda da Terra Roxa, do Dr. Constante Sudré, foram as famílias de: Domenico BERNARDI, Domenico BIASI, Pietro PERONI, Paolo ZACHINELLI, Rafaele MORO e Pietro GALLINA, totalizando 12 pessoas.
- Para a Fazenda da Gruta, do Dr. Antônio Sudré, foram as famílias de: Luigi APRILE e Battista BENEVENUTTI, totalizando 04 pessoas.
Devido ao não cumprimento das promessas feitas pelos fazendeiros aos imigrantes, parte retirou-se para o Núcleo Santa Leocádia e outros, seguiram para Vitória a fim de alcançar novos destinos.
Além da abolição do trabalho escravo e da chegada dos primeiros imigrantes italianos, o ano de 1888 também foi marcado pela retomada da migração de retirantes nordestinos para São Mateus, dos quais, a primeira leva chegou àquele porto no início de dezembro e era composta principalmente por mulheres e crianças que fugiam dos horrores da seca no Ceará, a província mais afetada.
1889: Dentre as famílias do Vêneto predominam os veroneses.
Desta mesma leva, algumas famílias ficaram na Fazenda Terra Roxa do Dr. Constante Sudré, das quais, lembramos das de Giovanni CAPUZZO (hoje CAPUCHO), Romoaldo PASETTO (hoje PASITTO), Natale BELLÈ e Angelo CAVALER (hoje CAVALLERO).
Ainda neste ano (1889), em março, também no Ádria, vieram para fazenda do major Antônio Cunha: Nicolò CADORIN (de Treviso), Francesco ROGIN (incluindo seu neto Marcello Ismaele ORTOLANI) (de Pádova) e Pietro FACCIN (de Vicenza) com suas respectivas famílias.
Foi também neste ano de 1889, há aproximadamente dois meses antes da Proclamação da República, que o major Antônio Rodrigues da Cunha foi agraciado com o título de BARÃO DE AYMORÉS, por ser o fazendeiro mais rico e de maior projeção política no norte do Espírito Santo, além do fato de ter contribuído bastante para o desbravamento do sertão de São Mateus.
Outro fazendeiro que teve grande destaque neste período foi um sobrinho do barão, que era proprietário da Fazenda Terra Roxa, o Dr. Constante Gomes Sudré. Ele chegou a ocupar o cargo de presidente (hoje governador) do Estado por duas vezes no final do século XIX.
No ano de 1890 dos escassos desembarques no porto de São Mateus, somente um imigrante, Sante ROGIN, se destina a região. Neste mesmo ano (1890), assume a direção do Núcleo de Santa Leocádia o Dr. Antônio dos Santos Neves, o qual procede as primeiras medições de lotes coloniais no Córrego da Serra.
1891: Após a calmaria do ano anterior, se intensificam as chegadas dos imigrantes às fazendas.
Ao findar o ano de 1891 foram desembarcados em Vitória os imigrantes do vapor Birmânia, pertencente à mesma companhia de navegação que possuía o vapor Ádria e, assim como ele, com grande capacidade para o transporte de passageiros. Como nas outras levas, após “quarentena”, agora na recém-construída Hospedaria de Imigrantes da Pedra d’Água, na baía de Vitória, seguiram nos vapores nacionais Lucia e Mayrink para o porto de São Mateus de onde, um pequeno grupo, dirigiu-se para o Núcleo de Santa Leocádia e, a grande maioria, se destinou as fazendas da região de Serra dos Aymorés, como as famílias de: Lorenzo ISACHINI, Sante MAGRINELLI, Giovanni LIVIO, Pietro DELLAVEDOVA (hoje DELEVEDOVE), Eugenio OLIVIERI (hoje OLIVEIRA), Alessandro MENFI, Luigi FRIZIERO (hoje FRIGERIO), Davide MAZARINI, Antonio ZANON, Francesco Antonio CAPELETTI (hoje CAPELETO), Vittorio CAPELETTI (hoje CAPELETO), Luigi VIDOTTO, Domenico GASPARINI, Natale GASPARINI, Beniamino BERCAVELLO (hoje BELCAVELO), Pietro PACCAGNAN (hoje PACANHÃ), Giulio BRAIDA, Antonio BIRAL, Marco CEBIN (hoje SEBIM), Giovanni PUTTIN, Angelo CONTARATO, Giuseppe FONTANA, Angelo CALATRONI, Antonio BUSATTO, Andrea MACCARINI, Lodovico LAVAGNOLI, Francesco FERRUGINI, Luigi SABADINI, Pasquale CIAROTTO (hoje CHEROTO), Francesco MESTRINELLI, Luigi SALVADEGO (hoje SELVATICO), Luigi MILLERI, Antonio BONOMETTI, Ferdinando BONOMETTI, Luigi BONOMETTI, Antonio VECHIATTO, Antonio BOÀ, Giuseppe GIACOMINI, Filippo MUNARIN, Cristiano Antonio BONOMO, Osvaldo BETTIN, Angelo BRAGAGNOLO, Giacinto COLETTO, Bortolo DENONI e Luigi PIEROBON (hoje PEDRO BOM). Estas famílias, em sua maioria, eram procedentes das províncias de Pádova, Verona e Treviso, na região do Vêneto.
1892: Surge oficialmente o Núcleo Colonial de Nova Venécia.
O novo núcleo se subdividia em várias seções que acompanhavam o curso do rio Cricaré ou de seus afluentes como: Seção Rio Preto (onde se estabeleceram os imigrantes anteriormente chegados as Fazendas da Terra Roxa, Gruta e Destino), Seção Córrego da Serra (que recebeu os imigrantes da fazenda do Barão de Aymorés), Seção Pip-Nuk (onde predominavam imigrantes da fazenda do coronel e comendador Matheus Cunha). Havia ainda as seções de Córrego Aguirre (hoje no distrito de Nestor Gomes) e Rio São Mateus abaixo (da sede do núcleo). Observa-se que, apesar da forte presença de italianos, haviam muitos lotes ocupados por brasileiros. Inclusive, subindo rio acima, no córrego da Boa Esperança, a ocupação não foi feita pelo governo, mas pelos próprios colonos que eram quase todos nordestinos.
A sede do Núcleo Colonial de Nova Venécia foi estabelecida no alto do morro próximo a foz do córrego da Serra (hoje morro da igreja matriz de São Marcos), onde foi construído um barracão para albergar, provisoriamente, as famílias recém-chegadas. Este barracão ficava onde hoje se encontra o Laboratório São Vicente. E foi por causa dele que a vila, depois, cidade de Nova Venécia foi conhecida por BARRACÃO pelos antigos.
Pelo que apuramos até o presente momento, as entradas das primeiras levas de imigrantes chegadas diretamente da Itália com escala em Vitória não extrapolaram ao ano de 1897 quando houve um recenseamento dos Núcleos de Santa Leocádia e Nova Venécia.
Contudo já identificamos que entre os 1.856 imigrantes italianos, dentre homens e mulheres, adultos e crianças, desembarcados no porto da cidade de São Mateus no período de 1888 a 1900, mais de 600 vieram para a região que hoje compõe o município de Nova Venécia. Destacamos que apesar de exaustivo a relação das famílias, ora apresentada pode conter incorreções na grafia dos sobrenomes e até mesmo lacunas.
Em escala muito reduzida houve a vinda de imigrantes portugueses e espanhóis neste mesmo período, mas destes, muitos acabaram por deixar a região.
Diferente de outras regiões de colonização, em Nova Venécia predominou a miscigenação entre os italianos e os ditos “nacionais”, sobretudo as famílias de retirantes nordestinos, bem como de negros, o que mostra que em nossa terra, apesar do choque de culturas, houve integração desde o princípio.
Hoje celebramos a memória destas famílias pioneiras que em conjunto com descendentes de africanos, migrantes capixabas, cearenses, baianos, mineiros, descendentes de alemães, pomeranos e sírio-libaneses, dentre muitos outros, colonizaram a nossa NOVA VENÉCIA.
O presente artigo "A Imigração Italiana e o Núcleo Colonial de Nova Venécia:: Uma saga de 124 anos" foi publicado, de forma mais reduzida, na página 23 da edição nº 2.698 de 20/10/2012 do jornal "A Notícia" de Nova Venécia-ES.










