segunda-feira, 22 de outubro de 2012

A Imigração Italiana e o Núcleo Colonial de Nova Venécia: Uma saga de 124 anos (1888-2012)

Foto 01 – Detalhe da obra A saída dos imigrantes, de Angiolo Tomasi, pintura sobre tela de 1896. Acervo: Galeria de Arte Moderna em Roma, Itália.


Foi em 1888 e não em 1890 que chegaram os primeiros italianos às terras do atual município de Nova Venécia. Esta pesquisa, ainda em andamento, já constatou que, entre 1888 e 1897, mais de 600 italianos (dentre homens e mulheres, adultos e crianças) chegaram a estas terras.

  
Por Rogério Frigerio Piva*

O ano era 1887 e o governo da antiga Província do Espírito Santo, prevendo o fim da escravidão, tratou de dotar os vales dos rios Itapemirim e São Mateus de Comissões de Medição de Terras. Tais comissões foram responsáveis pela criação de núcleos coloniais, cuja função, era atrair imigrantes europeus para essas regiões, onde se poderia “seduzi-los” para trabalharem nas fazendas.

Devemos compreender que neste momento, o preconceito dos antigos senhores, aliado à sede de liberdade dos ex-escravos, foram os principais fatores que levaram a crise da mão-de-obra que sobreveio nas fazendas. Muitos fazendeiros não admitiam o fato de tratar como empregados assalariados aqueles que haviam sido sua propriedade, presos como estavam à antiga mentalidade escravista. Por outro lado, muitos escravos, ao se verem livres, abandonavam as fazendas que tantas lembranças ruins lhes traziam.

Havia ainda a intenção do Governo Imperial que visava “embranquecer” a população com a introdução de imigrantes europeus. Nesta época, a maioria dos habitantes de São Mateus era negra.
Em 1888 foi criado o Núcleo Colonial de Santa Leocádia, situado, aproximadamente, a 23 km a oeste da cidade de São Mateus, às margens do córrego Bamburral e seus afluentes. A direção deste ficou a cargo do engenheiro Gabriel Emílio da Costa.

Em outubro de 1888 o núcleo recebeu a sua primeira leva de imigrantes italianos. Vieram no navio a vapor Ádria. Este navio, ou bastimento, como diziam os velhos italianos, pertencia à companhia Navigazione Generale Italiana – NGI e tinha a capacidade de transportar aproximadamente 1.500 passageiros por viagem. Era um dos mais velozes, percorrendo o trajeto Gênova a Vitória entre vinte e vinte e um dias. Esses imigrantes, chegando a Vitória, fizeram “quarentena” em uma hospedaria improvisada no centro da cidade, aguardando o navio Mathilde, de bandeira nacional, que fazia linha regular entre o Rio de Janeiro e o Sul da Bahia passando pelo Espírito Santo. O embarque no Mathilde se deu a 1º de outubro e, de Vitória, seguiram para o porto de São Mateus, onde desembarcaram dois ou três dias depois, ou seja, há exatos 124 anos atrás.

Foto 2- “Da esquerda para a direita, os vapores da NGI: Pó, Ádria e Sirio fundeados no porto de Gênova nos últimos idos do século XIX”. Imagem e texto disponíveis em http://www.novomilenio.inf.br/rossini/sirio.htm  

1888: As primeiras famílias italianas chegam a Serra dos Aymorés.

Eram 87 pessoas naturais das regiões da Lombardia e do Vêneto, norte da Itália, que, ao chegarem a São Mateus foram alojadas em um barracão localizado em terreno aos fundos do cemitério da cidade. Grande deve ter sido a curiosidade tanto de italianos quanto de mateenses, devido ao contraste de culturas.
Todos os colonos deveriam prosseguir para Santa Leocádia. Ocorre que, por pressão dos fazendeiros junto ao presidente da Província, Dr. Henrique Moscoso, parte das famílias foi destinada às fazendas da região da Serra dos Aymorés (atualmente Nova Venécia).

Foto 03 – Vista do porto da cidade de São Mateus em 1916, ainda bem parecida com a que os primeiros imigrantes tiveram quando nele desembarcaram em outubro de 1888. Acervo: Rogério Frigerio Piva
  • Para a Fazenda da Serra dos Aymorés (Serra de Baixo), pertencente ao major Antônio Rodrigues da Cunha, foram encaminhadas as famílias de: Giovanni BERTOLDI, Giovanni Battista CORRADINI e da viúva Maria ZANFERRARI (Família PONTARA), num total de 13 pessoas. 
  • Para a Fazenda da Boa Esperança (Serra de Cima), do comendador Matheus Gomes da Cunha foram as famílias de: Domenico SARTORI, Domenico BASSI, Domenico PERUZZI, Antonio ZANETTI e Angelo MANZANI totalizando 14 pessoas.
  • Para a Fazenda da Terra Roxa, do Dr. Constante Sudré, foram as famílias de: Domenico BERNARDI, Domenico BIASI, Pietro PERONI, Paolo ZACHINELLI, Rafaele MORO e Pietro GALLINA, totalizando 12 pessoas.
  • Para a Fazenda da Gruta, do Dr. Antônio Sudré, foram as famílias de: Luigi APRILE e Battista BENEVENUTTI, totalizando 04 pessoas.
Estes foram, portanto, os primeiros italianos a chegar à região do atual município de Nova Venécia no ano de 1888 e formavam um grupo de 43 pessoas.

Devido ao não cumprimento das promessas feitas pelos fazendeiros aos imigrantes, parte retirou-se para o Núcleo Santa Leocádia e outros, seguiram para Vitória a fim de alcançar novos destinos.

Além da abolição do trabalho escravo e da chegada dos primeiros imigrantes italianos, o ano de 1888 também foi marcado pela retomada da migração de retirantes nordestinos para São Mateus, dos quais, a primeira leva chegou àquele porto no início de dezembro e era composta principalmente por mulheres e crianças que fugiam dos horrores da seca no Ceará, a província mais afetada.
  

1889: Dentre as famílias do Vêneto predominam os veroneses.

Em meio à chegada de retirantes nordestinos desembarcaram no início de janeiro de 1889, no porto de São Mateus, mais imigrantes italianos. Vindos numa segunda viagem do navio a vapor Ádria, estes, assim como os imigrantes da primeira leva, também eram destinados ao Núcleo Santa Leocádia, mas alguns deles se dirigiram para as fazendas da Serra dos Aymorés como os chefes: Giacomo GUERRA, Simone FAZION, Pasquale MERLIN, Luigi PETTENE, Luigi GATTI, Carlo FLANGIN (hoje FRANGINI) e Angelo PIOMBIN, como suas respectivas famílias. Eram quase todas provenientes da Província de Verona e, no dia 17 de Janeiro de 1889, chegaram à fazenda do major Antônio Cunha.

Desta mesma leva, algumas famílias ficaram na Fazenda Terra Roxa do Dr. Constante Sudré, das quais, lembramos das de Giovanni CAPUZZO (hoje CAPUCHO), Romoaldo PASETTO (hoje PASITTO), Natale BELLÈ e Angelo CAVALER (hoje CAVALLERO).

Ainda neste ano (1889), em março, também no Ádria, vieram para fazenda do major Antônio Cunha: Nicolò CADORIN (de Treviso), Francesco ROGIN (incluindo seu neto Marcello Ismaele ORTOLANI) (de Pádova) e Pietro FACCIN (de Vicenza) com suas respectivas famílias.

Foi também neste ano de 1889, há aproximadamente dois meses antes da Proclamação da República, que o major Antônio Rodrigues da Cunha foi agraciado com o título de BARÃO DE AYMORÉS, por ser o fazendeiro mais rico e de maior projeção política no norte do Espírito Santo, além do fato de ter contribuído bastante para o desbravamento do sertão de São Mateus.

Outro fazendeiro que teve grande destaque neste período foi um sobrinho do barão, que era proprietário da Fazenda Terra Roxa, o Dr. Constante Gomes Sudré. Ele chegou a ocupar o cargo de presidente (hoje governador) do Estado por duas vezes no final do século XIX.

No ano de 1890 dos escassos desembarques no porto de São Mateus, somente um imigrante, Sante ROGIN, se destina a região. Neste mesmo ano (1890), assume a direção do Núcleo de Santa Leocádia o Dr. Antônio dos Santos Neves, o qual procede as primeiras medições de lotes coloniais no Córrego da Serra.
  

1891: Após a calmaria do ano anterior, se intensificam as chegadas dos imigrantes às fazendas.

   
Em 1891 novas viagens do vapor Ádria trouxeram mais imigrantes para as fazendas da região da Serra dos Aymorés como as famílias de: Pasquale VALENTE, Beniamino CALLONI (hoje CARLONI), Santo BAROLO, Francesco CAMPAGNOLA, Daniele LORENZI (hoje LOURENÇO), Raimondo ROSATO (hoje ROZZATI), Giovanni RIGHETTI, Antônio SCAMPARLE, Antonio BANZA, Luigi BOLDRIN, Giusto BORTOLETTO, Simone BELLUZZO (hoje BELUCIO), Giovanni COPPO, Antonio CASATO (hoje CASOTE), Domenico DANIELETTO, Luigi FANTICELLI, Santo GIBELLATO, Luigi MIOTTO, Giuseppe MIRANDOLA, Giovanni Evangelista MIRANDOLA, Bortolo NARDOTO, Fortunato PRIOR (hoje PRIN) e Bernardo VIALETTO dentre outros.

Ao findar o ano de 1891 foram desembarcados em Vitória os imigrantes do vapor Birmânia, pertencente à mesma companhia de navegação que possuía o vapor Ádria e, assim como ele, com grande capacidade para o transporte de passageiros. Como nas outras levas, após “quarentena”, agora na recém-construída Hospedaria de Imigrantes da Pedra d’Água, na baía de Vitória, seguiram nos vapores nacionais Lucia e Mayrink para o porto de São Mateus de onde, um pequeno grupo, dirigiu-se para o Núcleo de Santa Leocádia e, a grande maioria, se destinou as fazendas da região de Serra dos Aymorés, como as famílias de: Lorenzo ISACHINI, Sante MAGRINELLI, Giovanni LIVIO, Pietro DELLAVEDOVA (hoje DELEVEDOVE), Eugenio OLIVIERI (hoje OLIVEIRA), Alessandro MENFI, Luigi FRIZIERO (hoje FRIGERIO), Davide MAZARINI, Antonio ZANON, Francesco Antonio CAPELETTI (hoje CAPELETO), Vittorio CAPELETTI (hoje CAPELETO), Luigi VIDOTTO, Domenico GASPARINI, Natale GASPARINI, Beniamino BERCAVELLO (hoje BELCAVELO), Pietro PACCAGNAN (hoje PACANHÃ), Giulio BRAIDA, Antonio BIRAL, Marco CEBIN (hoje SEBIM), Giovanni PUTTIN, Angelo CONTARATO, Giuseppe FONTANA, Angelo CALATRONI, Antonio BUSATTO, Andrea MACCARINI, Lodovico LAVAGNOLI, Francesco FERRUGINI, Luigi SABADINI, Pasquale CIAROTTO (hoje CHEROTO), Francesco MESTRINELLI, Luigi SALVADEGO (hoje SELVATICO), Luigi MILLERI, Antonio BONOMETTI, Ferdinando BONOMETTI, Luigi BONOMETTI, Antonio VECHIATTO, Antonio BOÀ, Giuseppe GIACOMINI, Filippo MUNARIN, Cristiano Antonio BONOMO, Osvaldo BETTIN, Angelo BRAGAGNOLO, Giacinto COLETTO, Bortolo DENONI e Luigi PIEROBON (hoje PEDRO BOM). Estas famílias, em sua maioria, eram procedentes das províncias de Pádova, Verona e Treviso, na região do Vêneto.

 Foto 04 – Família de Modesto FRIZIERO (hoje Frigerio) e Ida FONTANA, em Vitória, no início da década de 1920. Ambos vieram da província de Pádova no vapor Birmânia, em dezembro de 1891, acompanhando os pais Luigi FRIZIERO e Giuseppe FONTANA. Acervo: Olinda Frigeri.

 1892: Surge oficialmente o Núcleo Colonial de Nova Venécia.

Até o ano de 1892, todos imigrantes estabelecidos na região da Serra dos Aymorés, que atualmente compreende o nosso município, se empregavam nas fazendas de café como meeiros e/ou diaristas. Foi neste mesmo ano (1892) que um sobrinho do Barão de Aymorés, chamado Dr. Antônio dos Santos Neves, já à frente da direção do Núcleo de Santa Leocádia, criou o Núcleo Colonial de NOVA VENÉCIA.

 Foto 05- O diretor do Núcleo Colonial de Nova Venécia, Dr. Antônio dos Santos Neves. Responsável por batizar o núcleo com o nome de "Nova Venécia". s/d. Acervo: Rogério Frigerio Piva
  
Primeiramente, projetou-se uma nova “seção” para o Núcleo Santa Leocádia, mas devido à extensão desta nova seção e a distância para com a sede do mesmo, ela acabou tornando-se núcleo, cujo nome, dado por ele, fazia alusão à região do Vêneto, que tem por capital a cidade de Venezia (Veneza para os brasileiros). Diga-se de passagem, a maioria dos imigrantes chegados até aquele momento, era da Região do Vêneto.

O novo núcleo se subdividia em várias seções que acompanhavam o curso do rio Cricaré ou de seus afluentes como: Seção Rio Preto (onde se estabeleceram os imigrantes anteriormente chegados as Fazendas da Terra Roxa, Gruta e Destino), Seção Córrego da Serra (que recebeu os imigrantes da fazenda do Barão de Aymorés), Seção Pip-Nuk (onde predominavam imigrantes da fazenda do coronel e comendador Matheus Cunha). Havia ainda as seções de Córrego Aguirre (hoje no distrito de Nestor Gomes) e Rio São Mateus abaixo (da sede do núcleo). Observa-se que, apesar da forte presença de italianos, haviam muitos lotes ocupados por brasileiros. Inclusive, subindo rio acima, no córrego da Boa Esperança, a ocupação não foi feita pelo governo, mas pelos próprios colonos que eram quase todos nordestinos.

A sede do Núcleo Colonial de Nova Venécia foi estabelecida no alto do morro próximo a foz do córrego da Serra (hoje morro da igreja matriz de São Marcos), onde foi construído um barracão para albergar, provisoriamente, as famílias recém-chegadas. Este barracão ficava onde hoje se encontra o Laboratório São Vicente. E foi por causa dele que a vila, depois, cidade de Nova Venécia foi conhecida por BARRACÃO pelos antigos.

Foto 06- Vista da Vila de Nova Venécia por volta de 1925. Neste local foi estabelecida, em 1892, a Sede do Núcleo Colonial de Nova Venécia. Acervo: Arquivo Público do Estado do Espírito Santo.
  
Entre 1892 e 1897 ainda chegaram as famílias de Alessandro FABEN, Angelo TONIN, Saverio MARINELLO, Bernardo CHIARELLI (hoje CHARILLI), Clemente CEGLIA (hoje SÉLIA), Pellegrino ROMANO, Domenico TAGLIAFERRI, Nicola DI FUSCO (hoje DE FRESCO), Aldo MARANI (hoje MARRANE), Federico SUIN, Pietro ROSA, Giovanni PANZERI e seu irmão Silvestre PANZERI (hoje PANCIERE), Antonio FRIGERIO, Carlo FRIGERIO, Caetano FRIGERIO, Francesco TENTORI, Giosuè AIROLDI, Antonio CESANA (hoje CEZANA), Giuseppe DREON (hoje ADRIÃO), Andrea FUGULIN, Antonio VISMARA (hoje VISNARA), Gioachino COLOMBO, Eugenio SANDRI, Giovanni Battista VIDA, Carlo CEREDA, Andrea LEONARDI, Emilio FANTICELLI, Luigi BRUZELLO e Carlo TAGLIAFERRI (hoje TALIAFERRO) dentre outros.
Foto 07- O imigrante Raffaele CEGLIA (hoje Sélia) veio com 13 anos no navio Città di Gênova, acompanhando o pai Clemente CEGLIA em 1893. Era da Província de Caserta na Região da Campânia, cuja capital é a cidade de Nápoles, daí seu sugestivo apelido "Rafael Napolitano". s/d. Acervo: Neuza Sélia.

Pelo que apuramos até o presente momento, as entradas das primeiras levas de imigrantes chegadas diretamente da Itália com escala em Vitória não extrapolaram ao ano de 1897 quando houve um recenseamento dos Núcleos de Santa Leocádia e Nova Venécia.

Contudo já identificamos que entre os 1.856 imigrantes italianos, dentre homens e mulheres, adultos e crianças, desembarcados no porto da cidade de São Mateus no período de 1888 a 1900, mais de 600 vieram para a região que hoje compõe o município de Nova Venécia. Destacamos que apesar de exaustivo a relação das famílias, ora apresentada pode conter incorreções na grafia dos sobrenomes e até mesmo lacunas.

Em escala muito reduzida houve a vinda de imigrantes portugueses e espanhóis neste mesmo período, mas destes, muitos acabaram por deixar a região.

Diferente de outras regiões de colonização, em Nova Venécia predominou a miscigenação entre os italianos e os ditos “nacionais”, sobretudo as famílias de retirantes nordestinos, bem como de negros, o que mostra que em nossa terra, apesar do choque de culturas, houve integração desde o princípio.

Hoje celebramos a memória destas famílias pioneiras que em conjunto com descendentes de africanos, migrantes capixabas, cearenses, baianos, mineiros, descendentes de alemães, pomeranos e sírio-libaneses, dentre muitos outros, colonizaram a nossa NOVA VENÉCIA.
  
*Rogério Frigerio Piva é natural de Nova Venécia, Graduado em História pela UFES, Professor, Historiador. Trabalhou no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo, onde ocupou diversos cargos entre 1998-2008. É Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo - IHGES e da Associação Brasileira de Estudos Cemiteriais - ABEC, Editor e Autor dos Blogs Projeto Pip-Nuk (www.projetopipnuk.blogspot.com) e COEMETERIUM: Notícias e Estudos Cemiteriais (www.kimitirion.blogspot.com) e Coordenador do Grupo de Canção Italiana “Coral Augusto Zaché”.


O presente artigo "A Imigração Italiana e o Núcleo Colonial de Nova Venécia:: Uma saga de 124 anos" foi publicado, de forma mais reduzida, na página 23 da edição nº 2.698 de 20/10/2012 do jornal "A Notícia" de Nova Venécia-ES.

quarta-feira, 17 de outubro de 2012

Nova Venécia comemora 124 anos de Imigração Italiana com a I FESTA DA TAIADELA

Evento beneficente pretende celebrar a memória dos antepassados e valorizar a cultura deixada pela imigração no município.

Força da Tradição: Membros do Grupo de Canção Italiana Augusto Zaché e do Grupo de Dança "I Bambini di Tutti i Colori" confraternizando no 3º Almoço Italiano realizado em 2011 no Lions Clube de Nova Venécia. Foto: Rogério Frigerio Piva, 22/05/2011.

Por Rogério Frigerio Piva*



No próximo domingo, 21 de Outubro de 2012, o Grupo de Canção Italiana “Coral Augusto Zaché” e a ASSERDEQ com o apoio da Paróquia São Marcos, vão promover no Centro Comunitário São Marcos o 4º Almoço Italiano, a I Festa da Taiadela.

Além de fortalecer aspectos da cultura deixada pelos imigrantes italianos em Nova Venécia como a gastronomia, música e a dança, bem como a memória da imigração italiana no município, o evento tem objetivo beneficente e busca recursos para as obras do Centro de Reabilitação de Dependentes Químicos e para a manutenção do Grupo de Canção Italiana sem fins lucrativos que atua há mais de 30 anos em Nova Venécia.

Já no sábado, 20 de outubro, por volta da 9:00 horas da manhã haverá o desfile de uma charrete enfeitada pelo centro da cidade anunciando e convidando a todos para festa. À tarde, no Centro Comunitário, o Projeto Imigrantes ES do Arquivo Público do Estado estará atendendo gratuitamente a todos os que desejarem saber mais sobre suas origens.

O domingo, 21 de outubro, será um dia festivo que se iniciará às 10:00 horas com uma Missa Italiana na Igreja Matriz de São Marcos, celebrada pelo Pe. Aldir Roque Loss e com a participação do Coral do Circolo Trentino de Santa Teresa. Após a missa, ainda na Igreja, será mostrado ao público um vídeo homenageando as primeiras famílias italianas estabelecidas em Nova Venécia entre 1888-1897.

Queremos corrigir um equívoco, onde em 1990 se comemorou o centenário quando já eram 102 anos de imigração, bem como, o de que não foi apenas uma dezena de imigrantes que vieram na época, mas sim, mais de 600 imigrantes, entre homens e mulheres, adultos e crianças, no período de 1888-1897, como tem apontado uma minuciosa pesquisa histórica ainda em andamento. Ocorre que na época do dito centenário não houve uma pesquisa exaustiva nas fontes primárias, somente se repetiu o que era dito pela historiografia.

O resgate da memória é o diferencial desta festa, que terá no cardápio a tradicional taiadela (macarrão caseiro), o agnolin, a polenta, frango, lingüiça, queijo e salada, com direito a suco, que serão servidos no Centro Comunitário, logo após a Missa Italiana e a homenagem as famílias pioneiras na Matriz de São Marcos.

Durante o almoço a animação fica por conta dos anfitriões, Coral Augusto Zaché de Nova Venécia, e os seus convidados: Coral da AMITAJ de Jaguaré, Coral do Circolo Trentino de Santa Teresa e o Grupo de dança “I Bambini di Tutti i Colori” de Nova Venécia.

Após se deliciarem com o almoço, os convidados poderão saborear um gostoso café na “Casa da Nonna”, local aconchegante onde, além da sobremesa, será possível apreciar objetos de uso cotidiano das famílias pioneiras ítalo-capixabas.

Além disso, outra presença especial será a da equipe do Projeto Imigrantes ES, desenvolvido pelo Arquivo Público do Estado do Espírito Santo que contará com escritório móvel na festa, onde aquele que desejar, poderá, gratuitamente, pesquisar sobre a chegada de seus ancestrais ao Espírito Santo, bem como, levar para casa o Registro de Entrada de Imigrante contendo dados preciosos para a genealogia e história das famílias.

Os convites individuais estão sendo vendidos pelos membros da ASSERDEQ e do Coral Augusto Zaché pelo valor de R$ 20,00 (vinte reais). O número é limitado, garanta logo o seu. Maiores informações pelo Cel. 9921-8856.


*Rogério Frigerio Piva é natural de Nova Venécia, Professor, Historiador, Membro do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo, Autor do Projeto Pip-Nuk (www.projetopipnuk.blogspot.com) e Coordenador do Grupo de Canção Italiana “Coral Augusto Zaché”.

Grupo de Canção Italiana Coral Augusto Zaché comemorando seus mais de 30 anos de existência em Nova Venécia no 3º Almoço Italiano no Lions Clube de Nova Venécia em 2011. Foto: Izabel M. da Penha Piva, 22/05/2011.

Confira a programação da

I FESTA DA TAIADELA:

Sábado (20/10):

• 09:00hs- Desfile pelas ruas do centro de Nova Venécia com membros dos Grupos de Canção e Dança Italiana de Nova Venécia.

• À tarde- No Centro Comunitário São Marcos, atendimento do Escritório Móvel do Projeto Imigrantes ES.

Domingo (21/10):

• 10:00hs- Missa Italiana na Matriz de São Marcos. Exibição de vídeo homenageando as primeiras famílias italianas chegadas na região do atual município entre 1888-1897.

• 11:30hs – Almoço italiano (com taiadela, agnolin, polenta, queijo, lingüiça, galinha, salada) no Centro Comunitário São Marcos com apresentação dos grupos folclóricos: Grupo de Canção Italiana Augusto Zaché, Coral da Associação do Movimento Italiano de Jaguaré (AMITAJ), Coral do Circolo Trentino de Santa Teresa e Grupo de Dança Italiana “I Bambini di Tutti i Colori” de Nova Venécia.

Durante todo o evento atendimento do Escritório Móvel do Projeto Imigrantes ES.

• Também haverá a “Casa da Nonna”, espaço destinado à exposição de objetos e artesanato das famílias ítalo-capixabas. Com direito a café e sobremesa.




terça-feira, 5 de abril de 2011

As origens do Bairro “Padre Gianni Bartesaghi” (1997-2000)

Aspecto do bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 11.


Por Rogério Frigerio Piva*


Houve um tempo em que o terreno onde se localiza o bairro “Padre Gianni”, como é popularmente conhecido, já serviu de aterro sanitário (lixão municipal). Foi no ano de 1991 quando o ex-prefeito de Nova Venécia, Walter De Prá, cumprindo o disposto na Lei Orgânica de Nova Venécia, transferiu para o local, o antigo lixão que se localizava as margens do rio Cricaré, em terreno impróprio, nas imediações do Ginásio Poli Esportivo, em local oposto ao de captação de água da estação de tratamento da CESAN. Naquela época, o terreno escolhido, medindo 148.410 m2, situado na localidade de “Córrego Bonfim”, encontrava-se fora do perímetro urbano da cidade de Nova Venécia.

Somente em 1997, na administração do ex-prefeito Francisco Diomar Forza, o aterro sanitário-lixão deixou de funcionar naquele local, sendo transferido para onde se encontra atualmente, às margens da Rodovia Nova Venécia-Vila Pavão. Por meio da Lei 2.204 de 11 de Julho de 1997 se oficializou a mudança de função do terreno que, a partir daquele ato legal, destinou-se a construção de unidades habitacionais.

O loteamento projetado foi denominado provisoriamente de “Bairro Municipal IV”, no qual, as casas populares começaram a ser edificadas. Ainda em 1997, por meio da Lei 2.217 de 24 de setembro, o novo bairro recebeu o nome de “Padre Gianni Bartesaghi”, homenagem a um italiano, missionário comboniano, que foi pároco entre 1978-1983, em Nova Venécia, e que, como seu último desejo, escolheu ser sepultado na cidade em 1991. Chamamos a atenção para destacar o incentivo do padre Gianni ao desenvolvimento da comunidade Ascensão do Senhor, cuja igreja, fôra construída com auxílio da paróquia de São Marcos, entre 1979-1981, no que foi o primeiro bairro de casas populares de Nova Venécia, o bairro COHAB, hoje conhecido pelo povo como: bairro Ascensão. Ironicamente, o saudoso padre Gianni, faleceu no mesmo ano em que, o terreno, onde mais tarde ergueu-se o bairro com seu nome, foi transformado em lixão municipal.



O padre Gianni Bartesaghi nasceu na Itália em 05/02/1929 e faleceu em 19/01/1991, sendo sepultado no Cemitério Senhor do Bonfim e, anos depois, seus restos foram transladados para o Mausoléu dos Combonianos no Cemitério São Marcos. Reprografia de foto em porcelana feita por Rogério Frigerio Piva, 20/03/2010.


Conforme Kim Campos, em artigo publicado na revista “Memória Legislativa: Edição comemorativa do cinqüentenário de Nova Venécia-ES”, no ano de 2004, à página 07, ao falar das ações realizadas pelo padre comboniano Bruno Tonolli, à frente da paróquia de São Marcos, entre 1996 e 2002, destaca que “(...) em dezembro do mesmo ano [1997] inaugurou 40 casas populares no bairro padre Gianni Bartesaghi, sendo 10 feitas pela prefeitura e 30 pela Paróquia.” Segundo esta informação sabemos que, apesar do conjunto habitacional do bairro Padre Gianni ter sido um empreendimento da administração municipal, contou também com recursos da Igreja Católica no seu início. Desta forma, fica registrado que desde dezembro de 1997, as primeiras unidades habitacionais, num total de 40, já estavam prontas, a ponto de serem solenemente inauguradas pelo pároco de então, padre Bruno Tonolli.

Em 16 de dezembro de 1998, por meio da Lei 2.303, o conjunto habitacional teve oficializados os nomes de sua avenida e quatro ruas, que receberam, respectivamente, os nomes de: Avenida André Forza, Rua Alexandre Caliman, Rua Alderico Moreschi, Rua Antonia Maria Gonçalves e Rua Josefina Casa Grande Francischetto.


Aspecto de casas populares no bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 10.

Na revista intitulada “NOVA VENÉCIA: 800 OBRAS”, órgão informativo da Prefeitura de Nova Venécia-ES, publicada pelo Setor de Comunicação Social da Prefeitura de Nova Venécia em 2000, à página 04, sob o título “Moradia é uma realidade” encontramos as seguintes informações sobre o bairro que nascia:


Em pouco mais de três anos a atual administração construiu 127 casas para famílias de baixa renda (...), dando assim moradia digna para muita gente que não tinha onde morar.

A Prefeitura criou um novo bairro de casas populares, chamado Padre Gianni. O bairro está muito bem estruturado, com água, energia e rede sanitária. Foi o primeiro bairro de Nova Venécia a receber esgoto tratado, começando a acabar assim com a poluição do Rio Cricaré.

As casas construídas pela Prefeitura têm dois quartos, sala, cozinha e banheiro.


Além da citação que transcrevemos na íntegra, a publicação de 20 páginas, trazia estampadas cerca de cinco fotos coloridas mostrado aspectos das novas casas edificadas. E como, na realidade, era um catálogo das “ditas” 800 obras realizadas ou iniciadas na gestão do ex-prefeito Francisco Diomar Forza (1997-2000), foi publicada também na revista, a relação das famílias beneficiadas que receberam as 123 casas populares, o que entra em conflito com a informação da já citada página 4, onde, citam 127 unidades. Supomos que talvez as quatro unidades citadas além das 123 entregues, tenham ficado prontas, mas não haviam sido entregues até o momento daquela publicação.


Aspecto de casas populares no bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 04.


Para que não se perca sua memória, transcreveremos abaixo os nomes dos(as) pioneiros(as) do bairro Padre Gianni que encontramos registrados nas páginas 10 e 11 da revista:


01. Beatriz Marques de Barcellos

02. Cenira Francisca Silva

03. Conceição Ap. Neves Oliveira

04. Devanir Fonseca

05. Ediana Dias da Silva Ramos

06. Edinalva dos Santos Manoel

07. Edma Lopes de Carvalho

08. Enivalda Pereira dos Reis

09. Euzineia Atanazio de Oliveira

10. Geralda Genuária Rosa

11. Inez Ribeiro Siqueira

12. Ireni Giacomini dos Santos

13. José Anacleto Correia

14. José Carlos Martins

15. Lucia Fabem da Silva

16. Mª das Graças B. Carvalho

17. Maria A. Correa Braz

18. Maria Alves Matos

19. Maria Antonia

20. Maria Ap. Alves de Souza

21. Maria da Penha Marques

22. Maria da Penha Pereira

23. Maria da Penha Pereira

24. Maria Dajuda dos Santos

25. Maria Helena P. de Andrade

26. Maria Margarida de Jesus

27. Maria Rodrigues Pena

28. Marilza Neves Alves

29. Marina de Oliveira

30. Natalina Ferrari Ferreira

31. Natanael Furtado Venturin

32. Nilda da Silva

33. Odila Bento de Lima

34. Quitéria Ferreira da Silva

35. Raimundo Pinto da Silva

36. Roque Batista Matos

37. Rosa Gomes da Mota

38. Rosalina Chaefer Vinturino

39. Sandra Puttin Teodoro

40. Sônia Maria Nunes Ortelan

41. Sônia Mendes Farias

42. Valdir Felberg

43. Vanilda da Conceição

44. Vanuza Vilella

45. Vilma de Almeida dos Santos

46. Zilma Gonçalves de Almeida

47. Alzenira T. da Conceição

48. Ana Cristina Giacomini Alberto

49. Anderson Barollo Pires

50. Aparecida Rosa



Cadastramento de moradores para o bairro Padre Gianni entre 1997-2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 10.


51. Mirian Dias Cândido

52. Célia Maria dos Santos

53. Cenira Pereira

54. Dativo Martins Dias

55. Edson Timoteo

56. Elenildes Correia

57. Elizabeth Matias dos Santos

58. Feliziana da Silva Macedo

59. Ilma A. Cardoso dos Santos

60. João Ferreira de Oliveira

61. Joaquim Benedito Filadelfia

62. José Marcos da Silva Santos

63. Kátia Rocha Santana

64. Laurides Fonseca Silva (Bira)

65. Leide Batista da Silva

66. Luzia Cheroto

67. Maria de Fátima Souza Barbosa

68. Maria de Fátima Moreira

69. Maura Fanticelli Pereira

70. Neide Maria Alves

71. Paulo Reges Pandolfi

72. Pedro C. dos Santos

73. Pedro Salvador

74. Regiane dos Santos

75. Rosa Aurea R. de Souza

76. Rosalina de Oliveira

77. Rosemeri de Souza Machado

78. Santa Marinho da Silva

79. Sebastião Rodrigues Medina

80. Silvana Lima de Almeida

81. Vanuza Venâncio Procópio

82. Vicenti de Paula da Silva

83. Zenilda da Penha Santos

84. Zildete P. L. dos Santos

85. Zuleide Morais Machado

86. Alzira F. dos Santos

87. Ana Maria de Oliveira Palácio

88. Angela Maria Elias

89. Antonia Alves dos Santos

90. Aparecida Alves da Silva

91. Beatriz Machado Correia

92. Brás Alves de Oliveira

93. Celina dos Santos Cunha

94. Clemilda Batista da Silva

95. Eliane Oliveira Gomes

96. Ivanete Cesarina

97. João Ferreira dos Santos

98. Júlia Márcia Fernandes

99. Juscelino O. dos Santos

100. Luiza Gomes de Almeida

101. Luzinete Pereira da Silva

102. Manoel Batista Nascimento

103. Maria da Penha A. Oliveira

104. Maria da S. Lisboa Fernandes

105. Maria das Graças A. Pereira

106. Maria de Fátima J. Barreto

107. Maria Djanira R. Amaral

108. Maria Eloisa Fran. Fonseca

109. Maria Eunice dos Santos

110. Maria Rosa de Jesus

111. Marta Zanon Puttin

112. Moaci Soares Benedito

113. Nair B. Filadelfia Sena

114. Nair Teixeira dos Santos

115. Natalino Pimenta

116. Neuza Thomé Gomes

117. Odete Pereira dos Santos

118. Reinaldo Rodrigues Pinas

119. Rosalina V. Nascimento

120. Solange Gomes da Silva

121. Valci Pereira dos Santos

122. Walmir de Araújo Santana

123. Zenilda da Penha dos Santos


Na relação publicada na revista a numeração inicia em 522 e termina em 644, tendo em vista que cada unidade habitacional foi considerada uma das “800 obras” realizadas por aquela administração. Chamamos a atenção para observar que a grande maioria dos chefes das famílias listadas, na relação acima, é de mulheres.

Também encontramos à página 13 da mesma publicação uma "Relação de Obras por Bairros", onde, no Bairro Padre “Gianne” são destacadas: “1- Construção de 144 casas populares; 2 – Construção de rede de tratamento de esgoto; 3 – Construção de energia elétrica; Instalação de telefone/água”. Mais uma vez observamos o número de unidades oscilando de 123 para 144. E questionamos: será que no cálculo estão incluídas as 30 casas construídas com recursos da Igreja Católica? Somente os documentos da administração municipal poderão dar uma precisão a esta informação, o que demandará uma pesquisa mais detalhada.


Aspecto de casas populares no bairro Padre Gianni por volta do ano 2000. Foto impressa na revista "NOVA VENÉCIA 800 OBRAS: órgão informativo da Prefeitura Municipal de Nova Venécia-ES", pág. 01.

Essas escassas notícias que colhemos aqui e acolá, de um bairro relativamente novo na paisagem urbana de Nova Venécia, como o “Padre Gianni”, servem de exemplo para mostrar que, mesmo o nosso passado mais recente, tem muita história prá contar, o que denuncia a falta que faz ao município um Arquivo Público Municipal que poderia e deveria evitar a perda dos registros de nosso passado.


Neste ano de 2011, o bairro “Padre Gianni Bartesaghi” está completando seu 14º aniversário. Surgiu como solução habitacional para atender às famílias carentes de Nova Venécia. Para aquelas famílias que tiveram, no bairro, a realização do sonho da casa própria, hoje, ainda resta lutar pela melhoria da infra-estrutura urbana e assim, poder usufruir de uma verdadeira qualidade de vida.



*Rogério Frigerio Piva é natural de Nova Venécia. Historiador graduado pela Universidade Federal do Espírito Santo. Pesquisa sobre a História de Nova Venécia desde 1992. Sócio Efetivo do Instituto Histórico e Geográfico do Espírito Santo. Trabalhou por 10 anos no Arquivo Público do Estado do Espírito Santo onde ocupou diversos cargos. Atualmente é Professor de História da Escola Municipal de Ensino Fundamental Tito dos Santos Neves. Desde 2008 mantém o blog: Projeto Pip-Nuk, com vasto material sobre a História e o Patrimônio Natural e Cultural Nova Venécia: http://www.projetopipnuk.blogspot.com/

sábado, 26 de março de 2011

Os tesouros da Matriz (I): As esculturas do italiano Carlo Crepaz

IGREJA MATRIZ DE SÃO MARCOS. Edificada entre 1961-1965 por meio de doações feitas pelos moradores do município. Situa-se na Praça São Marcos no Centro da cidade de Nova Venécia e foi a primeira do município a possuir estilo moderno. Diz-se que sua arquitetura foi inspirada em uma igreja de Vicenza, na região do Vêneto, norte da Itália. Possui magníficos vitrais e imagens do Cristo Crucificado e do padroeiro São Marcos, em tamanho natural, esculpidas em madeira pelo escultor italiano Carlos Crepaz. A Matriz de São Marcos guarda ainda, em sua fachada, que representa as tábuas da Lei, dadas por Deus à Moisés, uma escultura em auto-relevo de bronze do Leão Alado de São Marcos, presente do Governo Italiano Facista de Mussolini dado a Colônia de Nova Veneza em Santa Catarina e, erroneamente, recebido em Nova Venécia no ano de 1925. Foto: Rogério Frigerio Piva, 19/02/2009.

Com esta postagem estamos iniciando uma série que pretende identificar as obras de arte sacra que compõem a Igreja Matriz de São Marcos, construída entre 1961-1965, no centro da cidade de Nova Venécia.

Por Rogério Frigerio Piva




Segundo o Pe. Carlos em seu livro “História da Paróquia de Nova Venécia (FURBETTA : 1982 , pp. 47-54)”, foi no “governo” do terceiro vigário, Pe. Fiovo Camaioni (1960-1966), que se deu a construção da nova igreja matriz de São Marcos, levada a efeito pelos missionários combonianos e os fiéis católicos entre 1961-1965. Hoje para quem vive ou visita Nova Venécia é impossível não notar o majestoso templo erguido à moda antiga, como a lembrar o traçado clássico das antigas cidades greco-romanas. Erguendo-se a oeste de uma esplanada, existente no cume de um morro, localizado no coração da cidade, identificado popularmente como “Morro da Matriz”, como a lembrar uma típica acrópole grega, encontra-se a igreja de São Marcos e seus tesouros artísticos.


Destes, por hora, vamos nos ocupar das esculturas em madeira presentes no presbitério representando São Marcos - o padroeiro, e o Cristo Crucificado.


A imponente escultura sacra de São Marcos, obra de Carlo Crepaz, presente desde 1963 na Igreja Matriz onde é padroeiro. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



Mais uma vez é o Pe. Carlos Furbetta quem nos informa: Enquanto a obra [da construção da Matriz] sobe, [o vigário, Pe. Camaioni] planeja o futuro. A 29 de julho [de 1962] organiza uma campanha extra na cidade para a nova grande imagem em madeira de São Marcos, encomendada ao escultor italiano, radicado em Vitória, Carlos Krepas; (1982, p. 53). E, mais adiante, na mesma página complementa: Para a festa de São Marcos 1963 chega a nova magnífica imagem e são colocados na grande nave os bancos novos... (FURBETTA: 1982, p. 53).


Detalhe da escultura de São Marcos. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



Com estas poucas linhas, o nosso saudoso Pe. Carlos Furbetta nos revela a autoria e a data da imagem que ainda hoje adorna o presbitério e impressiona a fiéis e visitantes quando se observa a riqueza de detalhes de uma escultura que parece que vai tomar vida e descer do altar a qualquer momento.


A riqueza de detalhes da escultura de São Marcos que parece que vai tomar vida e descer do altar a qualquer momento. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.


Mas é somente quando aborda o “governo” do sétimo vigário, Pe. Pedro Baresi (1974-1977), que ele nos esclarece, detalhadamente, como estava organizado o altar-mor e nos faz nova revelação, sempre se baseando no livro de Tombo da Paróquia, que é sua fonte primária por excelência: Reforma do presbitério da matriz: De primeiro o presbitério se apresentava arquitetonicamente enfeitado por 5 arcos. A imagem de São Marcos estava colocada ao centro, num grande nicho situado no alto, acima do nível dos arcos. O sacrário estava numa arrumação meio provisória também no centro, abaixo do São Marcos e como que tapando, com a ajuda de cortinas, o arco central. (FURBETTA : 1982, p. 66).

Após esta descrição onde podemos identificar onde estava a escultura de São Marcos desde 1963, ele fala da primeira modificação que sofreu o presbitério da Matriz: Eliminamos os arcos e o nicho de São Marcos. No centro colocamos um grande crucifixo: o corpo de Cristo, dobro do natural, obra do escultor Carlos Krepas, é de madeira escura; a cruz que se apóia no chão e alcança em altura quase o forro, é de peroba clara. Tudo isso quer dizer que o Cristo é o centro da nossa fé e o centro da Igreja. (FURBETTA : 1982, P. 66).

Eis aí, a autoria da escultura do Cristo Crucificado existente, ainda hoje, no presbitério da matriz, o mesmo escultor que fez a imagem de São Marcos, Carlo Crepaz, também fez o Cristo Crucificado e, portanto, por estas notas, sabemos que a imagem do Cristo é, aproximadamente, mais de dez (10) anos mais nova que a de São Marcos.


O Cristo Crucificado passou a fazer parte do acervo sacro da Matriz de São Marcos entre 1974-1976. Mais uma vez a obra ficou a cargo do escultor Carlo Crepaz. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



Mas para onde foi a imagem de São Marcos após aquela reestruturação? Prossigamos o relato: Ao lado esquerdo da cruz, sobre grande consolo alto 1,70 m. sistematizamos o sacrário e, ao lado direito, sobre idêntico consolo, entronizamos a Bíblia. Esta arrumação quis indicar que Cristo nos deu duplo alimento: o de seu corpo, contido no sacrário, e o de sua palavra, contida na Bíblia. Ao canto direito do presbitério com a nave, sobre pedestal de um metro de altura colocamos a imagem do Padroeiro e, ao canto esquerdo, a imagem de Nossa Senhora. Esta arrumação quis significar que tanto Nossa Senhora como São Marcos são dois cristãos como nós, que, por terem seguido a Cristo mais perto, merecem a glória que desfrutam no céu e são para nós válidos protetores. (FURBETTA : 1982, p. 67).

Há alguns anos, ainda sob a administração dos missionários combonianos, o presbitério sofreu mais uma alteração que lhe deu a feição atual que pode ser vista na foto abaixo. Mesmo assim, as imagens: a do Cristo “centro da nossa fé e o centro da Igreja” que continua a ocupar o seu mesmo lugar, ladeado por São Marcos e a imagem de Nossa Senhora, já mencionada na década de 1970, da qual nos ocuparemos em outro momento.


Composição atual do presbitério da Igreja Matriz de São Marcos com destaque para o Cristo e o São Marcos do escultor Carlo Crepaz. Foto: Rogério Frigerio Piva, 25/03/2011.



São Marcos e o Cristo Crucificado, são duas imagens de madeira feitas pelo italiano Carlo Crepaz (ou “Krepas” como grafou o Pe. Carlos Furbetta) e foram feitas, respectivamente: a de São Marcos entre 1962-1963 e a do Cristo entre 1974-1976.

Mas e o escultor Carlo Crepaz, o que sabemos sobre ele?

Quem nos fala é a professora da Ufes, Almerinda S. Lopes, Coordenadora de Pesquisa/multimídia para o portal “Espaço Cultural – Burle Marx” ( http://www.sefaz.es.gov.br/painel/default.htm ) mantido pela SEFAZ – Secretaria de Estado da Fazenda do Espírito Santo:


Carlo Crepaz viveu em Vitória por 33 anos (1951-1984). Imagem disponivel em 26/03/2011 no site: http://www.es.gov.br/site/noticias/show.aspx?noticiaId=99661390

Carlo Crepaz - Nasceu em Ortisei [in Val Gardena] – Dolomiti [Südtirol], [extremo norte da] Itália, em 06 de abril de 1919 e faleceu na mesma cidade em 09 de setembro de 1992. Filho de Giacomo Crepaz e Adelinda Sotriffer. Escultor, pintor e professor. Em 1931, concluiu o curso de Arte na Escola de Belas Artes da cidade natal. Depois de se dedicar à escultura na Itália, onde expunha e recebia encomendas para obras públicas e privadas, decide transferir-se para o Brasil.

Em 1951 chega a Vitória, passando a professor de esculturas obras Pavonianas, no Santuário de Santo Antônio. Entre 1961 e 1981, leciona a disciplina de Modelagem e Escultura na antiga Escola de Belas Artes em Vitória, que ajudou a fundar e depois, no Centro de Artes da Universidade Federal do Espírito Santo. Naturaliza-se cidadão brasileiro.


O cenário urbano de Vitória conta com esculturas do artista, falecido em 1992. Imagem disponível em 26/03/2011 no site: http://www.es.gov.br/site/noticias/show.aspx?noticiaId=99661390

Em sua produção escultórica tem destaque a figura humana, especialmente os bustos de pessoas ilustres, além de figuras de temática sacra e vultos históricos. Seu estilo manteve-se sempre preso aos padrões clássicos, não revelando nenhum apreço pelas simplificações, geometrizações e estilizações modernistas. A pintura foi atividade paralela, mas secundária na carreira do artista, comparada à escultura. No entanto, deixou dois quadros de temática religiosa no Santuário de Santo Antônio: o santo pregando aos peixes e a mula ajoelhada diante do Santíssimo Sacramento (1952). Pelos serviços prestados, recebeu o título de cidadão vitoriense, em 1965. Em 1987, já aposentado, volta à Itália, falecendo na mesma cidade em que nasceu, em 1992.

Obras realizadas no Espírito Santo: "Índio Araribóia", 1959 (bronze); "Pietá"; anjos e batistério, Convento da Penha (Vila Velha); "Nossa Senhora da Vitória", (altar-mor da Catedral Metropolitana); Imagens de "D. Bosco", "Cristo Crucificado", "Nossa Senhora Auxiliadora" e busto do padre "Motti", na capela do Colégio Salesiano; busto de "Rui Barbosa", no Tribunal de Contas; busto do médico "Eurycledes de Jesus Zerbini", na Praça Ubaldo Ramalhete; "Monumento ao Imigrante", em Domingos Martins; "O Pescador", na Assembléia Legislativa; "Monumento ao Cel Antenor Guimarães", (1955); busto de Domingos Martins", no Palácio Anchieta; busto do Dr. Ubaldo Ramalhete Maia, na praça de mesmo nome; busto de Homero Massena, no Centro de Arte da UFES, entre outras. No Rio de Janeiro: "Anoitecer ", acervo do Museu Nacional de Belas Artes. São Paulo: "Grupo de Imigrantes", no Palácio do Café. Curitiba: "Cristo". Na Europa: "Cristo", 1936 (madeira), em Paris e Florença; "Papa Pio X", 1946 (no Vaticano), entre outras.


FONTES: ALVES JÚNIOR, José P. "As vozes dos bronzes", Revista do IHGES, n.º 20, 1959. FARIA, Willis de. Catálogo dos Monumentos Históricos e Culturais da Capital. Vitória, ARTGRAF, 1992. ASSIS, F. Eugênio de. "Efemérides Capixabas", recorte de jornal, s.p. e s.d., encontrado na caixa n.º 25 do acervo de Maria Stella de Novaes, no Arquivo Público Estadual."


(Texto disponível em 26/03/2011 no site: http://www.sefaz.es.gov.br/painel/escul10.htm).


Em 2006, uma exposição na Galeria Homero Massena e palestra, homenagearam Carlo Crepaz em Vitória, confira nos links abaixo:


05/09/2006 – Cultura – Vitória em Arte faz homenagem a Carlo Crepaz a partir desta terça (05):


http://www.es.gov.br/site/noticias/show.aspx?noticiaId=99661390


06/09/2006 – Cultura – Galeria Homero Massena mostra Crepaz até 30 de setembro:





Confira também portal italiano da terra natal de Crepaz:

ATENÇÃO!!!

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