segunda-feira, 25 de agosto de 2008

A Mangueira da Rua Salvador Cardoso

A Mangueira em 1988, conforme foto publicada à época no jornal "Folha do Estado". A esquerda a centenária Casa do Salvador Cardoso (a mais antiga ainda existente em Nova Venécia)

Árvore Protegida

Existe no centro da cidade de Nova Venécia um patrimônio natural paisagístico de interesse histórico, tombado a nível municipal pelo Decreto 1.302 de 15 de Julho de 1988.

Creio que seja do desconhecimento de muitos, principalmente dos mais novos. Até o presente momento, não identificamos outro município capixaba que tivesse promovido o tombamento (como medida de proteção/preservação) de uma árvore.

É uma pena que este fato tenha caído no esquecimento, pois deveria ser amplamente divulgado e motivo de orgulho para os venecianos.

Segue abaixo, na íntegra, uma “matéria paga” pela prefeitura municipal publicada no jornal FOLHA DO ESTADO nº 62 de 30 de Julho de 1988, página 03, onde se divulgou o Decreto de tombamento da mangueira. Felizmente esta iniciativa logrou êxito, e hoje, ainda temos o belo pé de manga, esquecido em sua majestade, mas preservado:


Adelson decreta tombamento de árvore preservando as belezas e a história do município

No último dia 15, através do Decreto 1.302, o prefeito Adelson Salvador executou o tombamento da mangueira localizada no centro da rua Salvador Cardoso, em atendimento à necessidade de preservação por motivos de beleza e valor histórico.
A árvore foi plantada em 8 de outubro de 1915, pelo saudoso Salvador Cardoso, na data de nascimento de seu filho Romeu Cardoso, família que ao longo dos anos contribuiu e vem contribuindo de forma significativa para o crescimento de Nova Venécia.
Em três ocasiões a mangueira, que agora é um patrimônio ecológico paisagístico do município, correu riscos de ser derrubada: duas promovidas pela Cesan, que alegava a necessidade de seu corte para fazer a rede de água. A terceira aconteceu no calçamento da rua. Em todas as ocasiões Fausto Cardoso se colocou contrário à medida, permitindo assim a sua existência, que agora está assegurada e livre de quaisquer tentativas de derrubada, com o Decreto assinado pelo prefeito Adelson Antonio Salvador, que tem se preocupado sobremaneira com o patrimônio ecológico, artístico e cultural do município, destacando-se também nessa área em relação aos governantes anteriores.
A responsabilidade legal pela preservação do patrimônio é de competência do Departamento de Urbanismo da Prefeitura – Deurb. Mas Adelson Salvador lembra que toda a comunidade pode e deve contribuir para a sua conservação, por ser o patrimônio de grande beleza e incalculável valor histórico.
As atividades que o chefe do executivo de Nova Venécia vem tomando no sentido de recuperar e resgatar a identidade cultural do município, são de enorme significado para que se mantenha viva a chama que se acendeu nas mentes da juventude veneciana, em torno da questão. São ainda exemplos que devem ser seguidos por outros administradores do Estados e do País que têm demonstrado descaso para com o assunto.
O tempo se encarregará de mostrar e destacar a validade de tais medidas.

Prefeitura Municipal de Nova Venécia
Por uma administração comunitária

Equipe de Governo
Adelson Antonio Salvador


2005 - 90 anos não lembrados!

Em 2005 a frondosa árvore completou 90 anos. Infelizmente niguém lembrou, como também não devem lembrar do seu "Decreto de Tombamento".

Ela viu a cidade crescer de um local privilegiado onde tudo começou. Foi próximo dali que o Dr. Antunico Neves construiu o BARRACÃO que abrigou os últimos imigrantes que chegaram ao Núcleo Colonial de Nova Venécia, por ele fundado em 1892. O local hoje abriga a Clínica do Dr. Vicente.

Por último mas não menos importante, devemos lembrar que, fica diante desta quase centenária árvore a mais antiga casa que restou em Nova Venécia, a Casa do Sr. Salvador Cardoso, descendente de tradicional família mateense e de grande importância política nos primórdios do município.

Só para se ter noção da antiguidade do imóvel, sabemos que o italiano Giovanni Emilio Frisiero (hoje Frigerio), contraiu matrimônio nesta casa com uma filha de cearenses, Sra. Conceição Firmino da Costa, no ano de 1911. O Salvador Cardoso, nesta época, era juíz de paz e sacramentava as cerimônias civis em sua residência.

Sugestões para a Administração Municipal.

A Administração do Municipio de Nova Venécia vem cuidando da frondosa árvore que, nesta época do ano, fica apinhada de flores como que anunciando que em breve estará carregada de doces frutos.

Gostariamos de deixar registradas algumas sugestões. Esta árvore é um ponto turístico da cidade e como tal deve ser valorizada e divulgada. O fato dela existir, nos dias de hoje, no centro de uma cidade dinâmica como Nova Venécia, por si só, significa uma grande vitória pela preservação ambiental.

Deve-se retirar o latão de lixo que repousa ao lado da árvore, maculando a visão de quem a contempla. Além disso, muito importante, será a colocação uma placa próxima à árvore sinalizando que ela é protegida por lei e que é testemunho da evolução urbana da cidade. Para finalizar um novo canteiro com um belo jardim poderá ser construído em volta da mesma valorizando e protegendo seu tronco.

Na cultura dos antigos indígenas botocudos, as árvores possuiam um significado muito especial, fato atestado por etnólogos e historiadores. Membros da família Cardoso registram que a sombra da mangueira era local de repouso e descanço para os nossos indígenas, quando passavam por "Barracão" (Nova Venécia).

Ali se alimentavam de seus frutos e honravam a mãe natureza. Por isso que o Projeto Pip-Nuk tomou como símbolo esta árvore que por si só representa a vida. Vida que queremos para toda população e para nosso meio ambiente.

domingo, 8 de junho de 2008

Era uma vez o "Casarão dos Escravos"

Para quem não "conheceu", a edificação retratada nesta foto feita em fins da década de 1950, era a casa-grande, sede da antiga Fazenda da Serra dos Aymorés.
A fazenda foi instalada entre 1870-1873 pelo major Antônio Rodrigues da Cunha (mais tarde agraciado com o título de Barão de Aymorés) para produção de café, cereais e gado, no que então fazia parte do "sertão" do município de São Mateus.
Considerada marco zero da colonização do braço sul do rio São Mateus ou Cricaré (região que abrage o município de Nova Venécia) todos conheciam-na melhor com o nome pelo qual foi popularmente batizada, "Casarão dos Escravos", uma referência a mão-de-obra escrava utilizada em sua construção.
Apesar do "Movimento Cultural de Nova Venécia" ter iniciado uma campanha para sua preservação/restauração por volta de 1981 e de ter sido aberto um processo de tombamento no Conselho Estadual de Cultura em 1984, esta sede típica de fazenda, exemplar raro da arquitetura rural de fins século XIX em nosso Estado, agora só existe na memória de quem a conheceu ou em fotografias que já vão ficando amarelas pela ação destruidora do tempo.

Situava-se na localidade de "Serra de Baixo" dentro da Área de Proteção Ambiental da Pedra do Elefante, onde ainda existem uns poucos vestígios de sua presença, estes fadados a desaparecer se não houver alguma intervenção.

Perdeu-se este patrimônio arquitetônico devido a inércia dos governos (federal, estadual e principalmente municipal) e da sociedade (brasileira, capixaba e principalmente veneciana), um verdadeiro descaso com nossa memória.

Apesar desta conjuntura negativa este monumento, desaparecido, já se enraizou no imaginário da população e, mesmo extinto, continua sendo símbolo da luta pela preservação cultural em Nova Venécia.

sábado, 31 de maio de 2008

200 anos da guerra contra os botocudos

"Família de índios botocudos atravessando um rio" Autor: pintura:Maximilian von Wied-Neuwied. Data: 1815-1817. Fonte: Livro "Viagem ao Brasil" do príncipe Maximilian von Wied-Neuwied publicado originalmente em 1820.

Por Sérgio Danilo Pena e Regina Horta Duarte*

Dois eventos importantes da história brasileira ocorreram no dia 13 de maio. O mais famoso e justamente festejado ocorreu em 1888: a assinatura, pela princesa Isabel, da Lei Áurea, que extinguiu a escravidão no Brasil. O outro, bem menos conhecido, aconteceu 80 anos antes e também envolveu um príncipe, mas não é nenhuma causa para comemoração.

Em 13 de maio de 1808, exatamente há 200 anos, o príncipe regente dom João (bisavô da princesa Isabel) assinou uma carta régia mandando "fazer guerra aos índios botocudos". O que levou dom João, que fugira de um conflito europeu, a iniciar uma nova guerra quase imediatamente após chegar ao Brasil? Quem eram os botocudos, percebidos como ameaçadores ao ponto de motivarem uma guerra contra eles?

O nome "botocudo", derrogatório e ofensivo, foi dado pelos portugueses a diversos povos histórica e geneticamente heterogêneos do grupo lingüístico macro-jê que habitavam o nordeste de Minas Gerais, o sul da Bahia e o norte do Espírito Santo. Em comum, tinham o hábito de usar discos de madeira no lábio inferior e nos lóbulos das orelhas para expandi-los de forma peculiar.

As rolhas dos barris de vinho português eram chamadas botoques – origem do cognome botocudos. Nômades e caçadores-coletores, caracterizavam-se por extrema belicosidade. Os botocudos não toleravam a presença dos lusos invasores e usavam táticas de guerrilha para atacar fazendas, matar colonos e aterrorizar todos os que se aproximassem de seus territórios. A carta régia os acusa de "praticar as mais horríveis e atrozes cenas da mais bárbara antropofagia, ora assassinando os portugueses e os índios mansos por meio de feridas, de que sorvem depois o sangue, ora dilacerando os corpos e comendo os seus tristes restos". Hoje, a maioria dos estudiosos acreditam que esse canibalismo pode nunca ter ocorrido. Por que a guerra contra eles? Pelo domínio do território que ocupavam.

Com a exaustão crescente dos depósitos auríferos em Minas Gerais, os portugueses se voltavam para a exploração da terra no interior do país. A chegada de dom João agudizou a situação: eram necessários víveres para alimentar a corte e estradas para transportá-los. Surgiram, assim, novos impulsos para a expansão das fronteiras da civilização. As terras brutas do nordeste de Minas, então cobertas de mata atlântica verdejante, eram o alvo e o prêmio, mas elas também abrigavam os irredutíveis botocudos. De certa maneira, e com alguma liberdade de comparação, o nordeste de Minas era então o que a Amazônia é nos dias de hoje.

Obviamente, os portugueses venceram a guerra, usando pólvora e aço. Os índios que sobreviviam eram escravizados. Também foram usadas armas biológicas -roupas e cobertores impregnados de vírus de varíola eram deixados na floresta para uso e contaminação dos índios.

Como escreveu o barão Johann Jakob von Tschudi, naturalista suíço que visitou a região por volta de 1860: "Os portugueses adotaram os meios mais infames para atingir esse objetivo. [...] Nenhuma nação européia se rebaixou tanto para manchar seu nome e sua honra como Portugal".

Mas ele adiciona: "Nos últimos tempos, apesar de já existir uma Constituição brasileira, que, infelizmente, tem sido implementada de forma muito precária, a guerra de destruição contra os índios na província de Minas Gerais ainda continua".

Hoje, os botocudos não existem mais. Seus descendentes, os índios krenak, somam poucas centenas de indivíduos. Tampouco há florestas verdejantes no nordeste de Minas. Predomina o semi-árido e a região é uma das mais pobres do Estado.

Ensina a sabedoria popular que quem ignora sua história está condenado a repetir os mesmos erros. A guerra contra os botocudos é um episódio importante da nossa história, com mensagens relevantes para a moderna sociedade brasileira. Assim, no dia 13 de maio, ao celebrar a abolição da escravatura pela princesa Isabel, também devemos nos lembrar da carta régia de seu bisavô, o futuro dom João 6º, que perseguiu, escravizou e matou botocudos, levando à virtual extinção de um conjunto de bravos povos indígenas.




* Extraído do jornal "Folha de São Paulo" de 13 de maio de 2008, coluna OPINIÃO, escrita por SÉRGIO DANILO PENA e REGINA HORTA DUARTE.

Fonte: http://www.fcaa.com.br/sitenovo/noticias/lernoticia.asp?retorno=listamaisnoticias.asp&cd_noticia=278 acessado em 31/05/2008.

ATENÇÃO!!!

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